Quando abril se fecha

Hoje de manhã, num desses momentos em que olhei lá fora de mim, o sol roçava diferente a mesma folha, com aquela inclinação de outono que ele gosta de usar em abril.

Não foi hoje que abril se abriu, eu sei. Está aí há vinte e oito dias, quase se fechando, mas o sol decidiu outonar naquela folha hoje.

Claro que foi intencional, e escrever com luz na folha foi covardia.

From publicdomainpictures.net

O sol acariciava de um jeito tão passional o verde, que ruborizei. Fiquei hipnotizada por alguns segundos – daqueles segundos que me fazem querer ser deusa, só para prender e converter o tempo em alguma espécie de verdade e, dele cheia, esvaziar o container de todas as vontades.

Mas nem mesmo chego a ser humana, e sempre perco o jogo quando me meto com deuses: Apolo introduziu a cena e Chronos logo a encerrou.

O que me resta é esperar que, ainda sob o efeito de Apolo, encontre Atena, e ela me ajude a encarar o meio giro manco do planeta… Mais tarde, bêbada de selenofilia, vou-me jogar nos braços de Dionísio, e render meus olhos ao encanto de uma folha em branco.

Quando Carlos se cansou

o poeta se cansou cedo
ou foi o medo ao ver a pedra
que tanto lhe fartou as retinas?

ele não sabia se rolava ou embalava
a pequena rocha aninhada
no início da própria estrada

havia uma vida
onde não havia sentido
não havia destino
antes da pedra
então vista
naquele caminho

Drummond e Maria Julieta – fonte: pinterest.com

havia uma pedra e Julieta a moldava
dando sentido à tola jornada
que já cansava o Carlos menino

mas o topo da montanha exigia
o pai ao lado da pedra
a pedra ao lado da cria

Mito de Sísifo – fonte: Google

e chega o mais absurdo dos dias
a filha não resiste à pedra
e o pai vai ao encontro da filha

Cativa

O desafio não é escrever isso ou aquilo
o desafio é viver o que se escreve
ou aquilo que quer ser escrito

há um desejo que pede
anseia
esperneia
exigindo registro

é desafio da vida
que busca a luz
a fenda
a réstia
a brecha de mim escondida

o braço se estica
mas não alcança a chave
que está lá

bem lá
presa no cinto do carcereiro

e a cada noite
o dia vira morte não escrita
aí fora
aqui dentro
no cativeiro da espera

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