Uma reunião animal

Queimadas, enchentes, furacões 01
Aquecimento global
Caçadores, indústria
Provocam extinção animal
Pra revidar, sobreviver
Protestar, combater
Uma reunião animal
x
Bichos de toda espécie 02
Assim como fez Noé
Pássaro, cavalo, besouro
Rinoceronte, jacaré
Camelo, bode, baleia
Se brincar até sereia
Seguindo essa maré
x
Reclamações, desabafos 03
A natureza em pauta
Macaco bagunçado
A girafa é muito alta
Derruba sempre a parede
João-de-barro com sede
Arrumar pedaço que falta
x
Antes da reunião começar 04
Quase acontece briga
Desastrado elefante
Pisoteou formiga
Gritou louro curioso
É homicídio doloso
Só para dar intriga
x
Leão o Rei da selva 05
Botou ordem no lugar
Mostrou leopardo e pantera
Mandou bicharada acalmar
Fez desordem vira almoço
O urubu chupa o osso
Do pedaço que sobrar
x
Espero ter sido claro 06
Estamos entendidos
Enfatizou o felino
Todos serão ouvidos
Temos o dia inteiro
Quem será o primeiro
Considerações, pedidos
x
Ratos organizados 07
Movendo uma ação
Contra farmacêuticos
Pedindo indenização
Danos físicos, morais
Testes laboratoriais
Cobaias de medicação
x
Chega a vez do morcego 08
Que discursa um pouquinho
Dizendo por que voa
Não é passarinho
Drácula não é meu parente
Parem com essa gente
Me chamar de vampirinho
x
Cansado de virar produto 09
O boto cor-de-rosa
Sugeriu que acabassem
Com história mentirosa
Seu óleo é especial
Esse folclore afinal
Mata mais que aftosa
x
Nisso o boi deu 10
Aquele raivoso mugido
Prezado amigo boto
Deixe de ser metido
Golfinho de meia tigela
Merece ir pra panela
Mamífero convencido
x
Aproveitando discussão 11
Raposa apaga a luz
Poltronas das galinhas
Rapidamente se conduz
Pula, porém no bote
Leva surra de caçote
Peru, galo e avestruz
x
Querendo entrar em greve 12
Dona ovelha, Senhor Carneiro
Indignados com tosa
Feita por fazendeiro
Deixar animal pelado
Ser industrializado
Ainda dormir no celeiro
x
Ganso barulhento afirma 13
Assim não dá mais
Uso de suas penas
Travesseiros e carnavais
Escola de samba, fantasia
Pavão também dança na folia
Fornecendo a feriados anuais
x
Pombo-correio obsoleto 14
Tentando voltar à ativa
Queimadura e choque
De enguia e água-viva
Todo mundo insatisfeito
Punição, forma, jeito
Abaixo-assinado, comitiva
x
Acabou o que era doce 15
Aquele abraço, já era
Quem falou, tá falado
Bicho calado, na espera
A partir daqui
Cada um por si
Fera caçando fera

(Jonnata Henrique – Fábulas em Cordel)

Clique abaixo para ver mais trabalhos do autor:
perfil do Facebook
Recanto das Letras

Manual pra gente chique

5 estrelas glamour -01
Só compra em butique
Chega gastar para
Que eu rico fique
Adquirindo meu cordel
Manual pra gente chique
X
Modesta enciclopédia -02
Uma bula versada
Comportamental resumo
Receita detalhada
A burguesia moderna
Pra você desvendada
X
Traição na classe “A” -03
Leva nome de affair
Termo legal,bonito
Pra homem,pra mulher
Tática muito usada
Manter status de pé
X
Festas são nota 10 -04
O pipoco do trovão
Convites personalizados
Reportagem pra televisão
Tudo bom de primeira
Visando evitar falação
X
Rico não pode ver -05
Nova tecnologia
Celular,carro,eletrônicos
Não importa a quantia
Consegue a novidade
Momento que sairia
X
Barzinho do passado -06
Casa possui adega
Vinhos,outras bebidas
Hora que quer pega
Apenas uma tacinha
Bebe com estilo,regra
X
Passa filtro solar -07
Antes de dormir
Evitar sol da noite
Logo cedo vai sair
Blusa,cachecol,meia
Frio do dia resistir
X
Carteira,bolsa de grife -08
Item obrigatório
Gasta uma fortuna
O tal do acessório
Para marcar presença
Destacar,ser notório
X
Havendo desentendimentos -09
Divergindo opiniões
Necessário tradutor
Em brigas,discussões
Compreender vocábulos
Distintos palavrões
X
Matrimonio diferente -10
Como empresa trabalha
Assina nupcial contrato
Se casamento falha
Registrou no papel
Finança não atrapalha
X
Guarda-roupa americano -11
Closet assim chamado
Marceneiro,na medida
Todo espaço fechado
Porta dá o acesso
Pro vestuário usado
X
Somente na LIVE -12
Que vídeo game joga
Bateu aquele stress
Tai chi chuan,yoga
Sauna,hidromassagem
No Pilates se afoga
X
Paga em notas altas -13
Esbanjar o que tem
Não usa a de 200
Por existir só de 100
Podendo vai em dólar
Para ostentar também
X
Comidas estranhas comem -14
Excêntrico seu paladar
Scargot,caramujo
Pistache,caviar
Champignon,cogumelo
Sushi,peixe sem assar
X
De plumas de ganso -15
O seu travesseiro
Com sabonete líquido
Lava mãos no banheiro
O pape higiênico
Perfumado,bom cheiro
X
Chega de limusine -16
Indo para evento
Ou então helicóptero
Cheio de barulho,vento
Camaro ou ferrari
Muito exibimento
X
Mascando chiclete -17
Lenço fica esperando
E discretamente
O doce enrolando
Procura uma lixeira
Ali vai descartando
X
Na cozinha confusão -18
Pense num cabaré
Garfo de sobremesa
Faca de pão,colher
De tudo que é jeito
Um exagero no talher
X
Sendo ele suíço -19
Come o chocolate
Na marina atracado
Tem luxuoso iate
Roupas de encomenda
Particular alfaiate
X
Em casa escondido -20
Uma barra de ouro
Anéis de diamante
Integram o tesouro
Pérolas e rubis
Brilhantes um estouro
X
Esportes que praticam -21
Golf,esgrima,hipismo
Esquiando na neve
Na montanha alpinismo
Boliche e xadrez
Fórmula 1,paraquedismo
X
Mania,colecionam coisas -22
Selos e miniaturas
Violões,tampas,latas
Álbuns de figuras
Disco de vinil,livros
Moedas e outras loucuras
X
Me despeço a sensação -23
De dever cumprido
Perdoe se acaso
Algo passar batido
Muita riqueza fico bobo
Devo ter esquecido
X
Socialight,magnata -24
Executivo,banqueiro
Empresário,lojista
Povo bom de dinheiro
Compre cordel,divulgue
Nosso brasil brasileiro

(Jonnata Henrique – Literatura de Cordel)

Clique abaixo para ver mais trabalhos do autor:
perfil do Facebook
Recanto das Letras

Soneto do amor improvável

Quando menos se esperava fez-se o riso
do silêncio e da inércia aplauso e canto
e da boca outrora muda em desencanto
um aceno e um convite ao paraíso.

Quem vivia há tempo em desespero
tendo olhos marejados de suplício
castigado com a dor do amor efêmero
incontente, amargurado, entregue ao vício.

Improvável, não mais que improvável
Fez-se alegre e doce, amigo e confidente
de solitário e esquecido, agora amável.

A esperança renasceu sem medo
da insegurança se revelou o segredo
que do amor se espera o improvável.

(Evan do Carmo, in Para Vinícius – Editora do Carmo)

clique para comprar

Evan do Carmo, Nascido na Paraíba em (29/04/64) é poeta, escritor, romancista, jornalista, músico, filósofo e crítico literário. Fundou e dirigiu o jornal Fakos Universitário. Criou em 2009 a revista Leitura e Crítica. Tem 22 livros publicados, sua obra está disponível em 12 países, (um livro editado em inglês. (O Moralista) Entre outros estão: O Fel e o Mel, Heresia poética, Elogio à Loucura de Nietzsche, Licença Poética, Labirinto Emocional, Presunção, O Cadafalso, Dente de Aço, Alma Mediana, e Língua de Fogo. Participou também com muitos contos em antologias. Foi um dos vencedores do concurso Machado de Assis do SESC DF de 2005. Em 2007 foi jurado na categoria contos do concurso Gente de Talento 2007 promovido pela Caixa Econômica Federal, ao lado de Marcelino Freire. Em 2012 criou e editou até 2015, os Jornais: Correio Brasília, Jornal de Vicente Pires, Jornal de Taguatinga e o Jornal do Gama. Evan do Carmo é estudioso da obra de José Saramago, em 2015 publicou o livro Ensaio Sobre a Loucura, e o livro Reflexões de Saramago, momentos antes de sua morte, o livro nos oferece um panorama perfeito na voz do próprio Saramago em forma de ficção ensaísta, sobre a obra do Nobel Português. Em 2016 criou a Editora do Carmo e o projeto Dez Poetas e Eu, onde já publicou 100 poetas, e o livro Um Brinde à Poesia, uma obra de coautoria com outros poetas contemporâneos. Palestras e oficinas literárias (61) 981188607

Somos poetas

Estamos destinados à tragédia
a vida simples e comum
dos homens não nos alimenta,
queremos mais que o absurdo
dos amores correspondidos.

Queremos a fatalidade e o imprevisto
a morte no drama do gozo proibido
somos poetas, pintores, artistas
de toda sorte, contamos sempre
com o azar em forma de destino.

Queremos a vida nas cinzas da Fênix
queremos o calvário do Cristo
e a cicuta de Sócrates
queremos as asas frágeis de Ícaro..

Somos a flor murcha à beira da estrada
que o amante não conseguiu ofertar
à namorada da infância.

Somos o medo vestido de Aquiles
somos a fuga e a desesperança
somos o verbo na língua de Deus
e o barro nas mãos do homem.

(Evan do Carmo, in Catarse – Editora do Carmo)

clique para comprar

Evan do Carmo, Nascido na Paraíba em (29/04/64) é poeta, escritor, romancista, jornalista, músico, filósofo e crítico literário. Fundou e dirigiu o jornal Fakos Universitário. Criou em 2009 a revista Leitura e Crítica. Tem 22 livros publicados, sua obra está disponível em 12 países, (um livro editado em inglês. (O Moralista) Entre outros estão: O Fel e o Mel, Heresia poética, Elogio à Loucura de Nietzsche, Licença Poética, Labirinto Emocional, Presunção, O Cadafalso, Dente de Aço, Alma Mediana, e Língua de Fogo. Participou também com muitos contos em antologias. Foi um dos vencedores do concurso Machado de Assis do SESC DF de 2005. Em 2007 foi jurado na categoria contos do concurso Gente de Talento 2007 promovido pela Caixa Econômica Federal, ao lado de Marcelino Freire. Em 2012 criou e editou até 2015, os Jornais: Correio Brasília, Jornal de Vicente Pires, Jornal de Taguatinga e o Jornal do Gama. Evan do Carmo é estudioso da obra de José Saramago, em 2015 publicou o livro Ensaio Sobre a Loucura, e o livro Reflexões de Saramago, momentos antes de sua morte, o livro nos oferece um panorama perfeito na voz do próprio Saramago em forma de ficção ensaísta, sobre a obra do Nobel Português. Em 2016 criou a Editora do Carmo e o projeto Dez Poetas e Eu, onde já publicou 100 poetas, e o livro Um Brinde à Poesia, uma obra de coautoria com outros poetas contemporâneos. Palestras e oficinas literárias (61) 981188607

Amargo Amargar

A seguir, trecho do primoroso livro Amargo Amargar, de Isidro Sousa, que descreve a trajetória de amor e sofrimento de seis mulheres.
Isidro é escritor, antologista do selo Sui Generis e editor da revista literária digital SGmag.

Naquela manhã luminosa, passando casualmente pela igreja matriz, Beatriz deteve-se a contemplar a construção secular. Já visitara a maioria dos monumentos e locais de interesse em Vila Rica, explorara quase todo o património cultural do município, e embora não se considerasse religiosa quis apreciar a arquitectura daquele santuário.

Uma ampla porta transportou-a para o interior do templo. Ressaltaram logo várias filas de bancos em madeira. Observou as colunas esculpidas no extremo mais distante da capela;

Uma ampla porta transportou-a para o interior do templo. Ressaltaram logo várias filas de bancos em madeira. Observou as colunas esculpidas no extremo mais distante da capela; o branco entrelaçado das suas gravuras refulgia com uma incandescência avermelhada sob os raios solares que emanavam da janela, e ambos os pilares em torno do altar formavam um estranho par: o da esquerda era entalhado por simples linhas verticais enquanto o da direita se apresentava adornado por uma elaborada espiral florida. Reparando no lustre de cristal que pendia sobre a mesa de mármore, mirou o vitral à sua frente, pouco acima do altar, que seguia até ao tecto em forma de cúpula. Apreciou o púlpito brilhante, com ornamentos dourados nas colunas laterais; ao lado, um órgão musical reluzia às poucas luzes acesas.

Após uma visão geral, espiou os objectos religiosos: crucifixos, imagens sacras, esculturas, a Virgem Maria, o Menino Jesus, São Sebastião, Santa Bárbara, São José, Santo António, terços e rosários pendurados, castiçais e candelabros. Um pequeno oratório ostentava um cálice dourado defronte a uma cruz; uma aragem fria envolveu Beatriz, fazendo-a fitar esse oratório repleto de sombras tremeluzentes e ignorar as pessoas que iam ocupando os bancos. Alguém sentado ao órgão começou a melodiar uma música de harmonia leve, adorável; Beatriz lembrou que era domingo e compreendeu que iria ser celebrada a eucaristia dominical. Indiferente ao tráfego humano em solo sagrado, decidiu ir embora, porém, quando se preparava para sair, um súbito constrangimento reteve-a; embora não fosse católica praticante, já que estava na igreja assistiria à missa. Sentou-se, então, num banco da segunda fileira, ouvindo a doçura do som que o órgão emitia. Os seus olhos inquietos fixaram a imagem de Jesus Cristo crucificado: enquanto olhava as feridas espalhadas pelo corpo martirizado em barro talhado, a coroa de espinhos na cabeça, mãos, pés e o abdómen sangrando, na personificação daquele flagelo, pensava em Manuel. Porque será que ele lhe rejeitava as chamadas em determinados períodos? Porque desligava sempre o telemóvel, especialmente aos domingos? Nessa manhã, tentara telefonar-lhe três vezes. Começava a estranhar certas atitudes daquele homem que a fizera redespertar para a vida…

Absorta nestes pensamentos, mantinha-se alheia à entrada das pessoas que continuavam a encher a igreja. Um clérigo, devidamente paramentado, surgiu diante do altar. As palavras inaugurais da homilia sobressaltaram-na. Os olhos de Beatriz, que fitavam novamente as chamas bruxuleantes das velas de um candelabro, procuraram logo o altar; cruzaram-se com os olhos do sacerdote, que se deteve por momentos. E ela viu, incrédula, que os olhos do eclesiástico se perdiam nas órbitas. «Manuel?!!!… Meu Deus!», bradou, involuntariamente, para si mesma.

Nesse instante, a sua mente reviu todos aqueles que lhe atormentaram a vida:

o padrasto violando-a sistematicamente durante a infância e adolescência; o primo já adulto iludindo-a e abandonando-a na rua da amargura após ajudá-la a fugir; o primeiro rapaz que amou forçando-a a prostituir-se; o amante casado obrigando-a a abortar; o velho empresário empurrando-a para a cama para lhe oferecer o primeiro trabalho na televisão; o namorado viciado em drogas e no jogo espancando-a e roubando-lhe todas as economias…

Durante anos, Beatriz sentira-se um fantoche nas mãos dos homens; perdera totalmente a confiança neles. O dia em que conquistou um papel de destaque numa telenovela do canal de maior audiência granjeou-lhe uma confortável autonomia financeira. Desde aí, jamais se deixaria tornar a ludibriar pelos homens, passando, ela própria, a usá-los e a descartá-los, consoante as suas vontades e necessidades. Até que conheceu Manuel e a vida lhe devolveu o brilho aos lábios, o sorriso aos olhos, a auto-estima desaparecida, uma enorme vontade de recuperar o tempo perdido. Porque Manuel revelara-se diferente de todos os homens que na sua vida transitaram; era um ser humano sensível, compreensivo, envolvente, apaixonado. E agora… «Porquê, Manuel? Porquê?» A sua estrutura psicológica ruía novamente.

Continuava horrorizada, boquiaberta, paralisada no banco, olhos aprisionados no altar, alienada de tudo o que ouvia ou a envolvia. Um longo silêncio tumular imperava na sua mente absorta em pensamentos que se emaranhavam entre o bem e o mal… «Que absurdo, meu Deus!» Sentiu vontade de vomitar o seu infortúnio numa raiva incontrolada, quis gritar com toda a força dos pulmões… «Porque me mentiste, Manuel?» Mas a voz não saía. Tudo lhe flutuava na cabeça sem fazer conexão alguma; um misto de sensações alucinadas perpassava-lhe o rosto atónito enquanto o padre retomava a missa. «Porquê, Manuel?» Tombando de joelhos no chão frio, mergulhou, sufocada, na escuridão da sua dor, no vazio da esperança, no silêncio sepulcral da sua alma, revivendo, aturdida, aquele longínquo fim-de-semana em que saíra de Lisboa. Deixou-se recordar, com nostalgia, o dia em que conhecera Manuel…

in «Amargo Amargar» de Isidro Sousa – clique para comprar.

África

Terra ferida.
Sem garfo nem colher,
onde só a faca corta.
Onde vida
é palavra morta…
Homem, mulher,
pouco importa.
Onde se implora.
Se estende a mão.
Se morre em cada olhar.
Onde passa a hora
à espera de um pão
que talvez não vá chegar.
Terra de amargura.
Terra farta.
Terra dura.
Fome, guerra.
Ai, terra
onde tudo mata
menos a fatura!

(Carlitos, em Ecos de uma Paixão – Chiado Editora)

clique para comprar

Dezoito

Trecho de “A Guerra”, um dos contos presentes no livro Dezoito, de Everton Medeiros, que reúne histórias instigantes de ficção, drama, sobrenatural, suspense, comédia e romance.

(…)

O trajeto pelo qual eu costumava correr era bastante extenso e tomava boa parte da manhã. No meio do percurso, pouco antes das 11h, algo me chamou a atenção ao olhar para o céu. Naquele momento, não havia nenhum avião sobrevoando Windsor, nem mesmo Londres, até onde eu podia ver.

           E isso era por demais estranho, pois do Aeroporto de Heathrow partem e chegam aviões a todo instante. Não há como olhar para o céu em qualquer momento do dia e não ver nenhuma aeronave sobre a cidade. No entanto, ainda mais inusitado foi o fato de não haver um único rastro no céu, deixado pelas turbinas dos aviões. Ficou claro para mim que, naquela manhã, os aviões não estavam voando. Nunca vi isso acontecer.

            Com a respiração ofegante e os batimentos cardíacos bastante acelerados pelos quilômetros já percorridos, eu parei de correr naquele instante. Enquanto recuperava o fôlego, olhei ao redor e reparei também que não havia carros nem pessoas circulando pelas ruas e calçadas. As casas estavam fechadas. Então pensei: Cadê todo mundo?. Algo parecia muito errado. De forma repentina, uma incompreensível sensação de medo me tomou. Era como se todos soubessem de algo que estava para acontecer, exceto eu. Peguei meu celular e liguei para Emily. Após alguns toques ela atendeu:

            – Oi, amor.

            – Onde você tá?

            – Chegando ao Hyde Park.

            – E o trânsito?

            – A cidade tá vazia. Só vi policiais e carros de polícia. – Emily falava lentamente e com voz de espanto.

            – Aqui também não tem ninguém… muito estranho!

            – Eles fizeram sinal para eu sair daqui. Não entendi o porquê. Pareciam nervosos.

            – Não há nenhum avião no céu.

            – Nunca vi isso.

            – E suas amigas?

            – Tentei falar com elas, mas nenhuma atendeu.

            – É melhor você voltar pra casa!

            – Estou com medo!

            – Fique calma!

            – Não há ninguém nas ruas.

– Você viu algum comércio aberto?

            – Nada… um silêncio muito estranho… o que tá acontecendo?

            – Volte logo!

            Olhei para meu relógio e o mesmo marcava 11h09. Então, Emily falou suas últimas palavras.

            – Já estou… – a ligação telefônica foi cortada.

            Neste momento, um intenso clarão branco-amarelado tomou repentinamente o céu de Londres. Uma gigantesca bola de fogo, como nunca vira em minha vida, ofuscava o próprio Sol. Uma claridade insuportável. Fechei meus olhos numa fração de segundo, e, agindo por instinto, coloquei rapidamente minhas mãos sobre eles e me joguei no chão. Deitado, senti a temperatura da minha pele subir rapidamente. Naquelas primeiras frações de segundo após o clarão, eu ainda não sabia o que era aquilo. Por um instante, pensei que pudesse tratar-se de um meteorito ou algum pequeno asteroide explodindo sobre Londres.

(…)

(Everton Medeiros)


“Na Cabala, o número dezoito tem um significado especial e corresponde ao poder de vontade da alma. Ele é equivalente ao valor numérico da palavra hebraica “Chai”, que tem como significado “vivo” ou “vida”. E vida é aquilo que é dado pelo autor aos inúmeros personagens, humanos ou não, que compõem os DEZOITO contos desta variada obra. Neste livro, o autor viaja no tempo, no espaço e por diversos gêneros de conto.

A obra inicia-se com o drama vivido por um tenente canadense na Segunda Guerra Mundial, seguindo para uma viagem de carro sobrenatural numa sexta-feira 13, e depois para o ano 3316 da Era Cristã, quando a humanidade alcançará o fim e o início de tudo. Nos textos seguintes, vemos o horror de uma nova e destrutiva guerra mundial, o drama de um órfão à espera da adoção, a descoberta das Américas pelo genovês Cristóvão Colombo com algo mais que a História não contou, o prenúncio do fim do planeta Terra, entre outros contos sobrenaturais, de ficção científica, romance, suspense, drama e comédia.” (contracapa de Dezoito)

O livro pode ser adquirido diretamente com o autor pelo e-mail everton_1968@yahoo.com.br, ou clique nos links abaixo para compras nas livrarias virtuais;
Asabeça
Martins Fontes Paulista
Livraria da Travessa

Everton Medeiros é engenheiro e Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil. Iniciou na escrita no ano de 2000, com a elaboração de roteiro cinematográfico (gênero ficção científica) voltado ao mercado norte-americano. Em 2001, participou de diversos concursos desse gênero nos Estados Unidos, onde registrou seu primeiro roteiro de longa-metragem. Conta com diversas participações em antologias de poesia e prosa, no Brasil e em Portugal. Entre seus próximos projetos estão o lançamento de um livro de poesias e um romance de ficção científica.

Além da escrita, tem como hobby a fotografia e a astronomia, suas observações e seus registros.

Vazio da alma

Não quer a história perfeita
nem os felizes momentos.
O poema não os aceita.
Baseia-se na maleita,
nas dores, e sofrimentos.

No amargo da separação.
No fogo a queimar o peito.
No veneno da traição.
E só a mágoa no coração
faz o poema perfeito.

É a lágrima e a dor
que alimenta a poesia.
Nem lindos sonhos de amor.
Nada é mais inspirador
do que uma alma vazia.

(Carlitos, em Ecos de uma Paixão – Chiado Editora – clique para comprar)

Não, não é cansaço…

Não, não é cansaço… 
É uma quantidade de desilusão 
Que se me entranha na espécie de pensar, 
E um domingo às avessas 
Do sentimento, 
Um feriado passado no abismo… 

Não, cansaço não é… 
É eu estar existindo 
E também o mundo, 
Com tudo aquilo que contém, 
Como tudo aquilo que nele se desdobra 
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais. 

Não. Cansaço por quê? 
É uma sensação abstrata 
Da vida concreta — 
Qualquer coisa como um grito 
Por dar, 
Qualquer coisa como uma angústia 
Por sofrer, 
Ou por sofrer completamente, 
Ou por sofrer como… 
Sim, ou por sofrer como… 
Isso mesmo, como… 

Como quê?… 
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço. 

(Ai, cegos que cantam na rua, 
Que formidável realejo 
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!) 

Porque oiço, vejo. 
Confesso: é cansaço!… 

(Fernando Pessoa em Álvaro de Campos)

Cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço — 
Não disto nem daquilo, 
Nem sequer de tudo ou de nada: 
Cansaço assim mesmo, ele mesmo, 
Cansaço. 

A subtileza das sensações inúteis, 
As paixões violentas por coisa nenhuma, 
Os amores intensos por o suposto em alguém, 
Essas coisas todas — 
Essas e o que falta nelas eternamente —; 
Tudo isso faz um cansaço, 
Este cansaço, 
Cansaço. 

Há sem dúvida quem ame o infinito, 
Há sem dúvida quem deseje o impossível, 
Há sem dúvida quem não queira nada — 
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: 
Porque eu amo infinitamente o finito, 
Porque eu desejo impossivelmente o possível, 
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, 
Ou até se não puder ser… 

E o resultado? 
Para eles a vida vivida ou sonhada, 
Para eles o sonho sonhado ou vivido, 
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto… 
Para mim só um grande, um profundo, 
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço, 
Um supremíssimo cansaço, 
Íssimno, íssimo, íssimo, 
Cansaço… 

(Fernando Pessoa em Álvaro de Campos)