Cardume

É preciso calar,
porque em silêncio respiramos melhor,
o diafragma está livre e ondula,
brânquias secas por fora,
mas que engoliram o mar

A respiração assim não amarra veias,
não arruína enredos,
não condena desfechos,
garante mais uma cena,
outras centenas delas,
e, dependendo do ritmo,
abafa o terror da trincheira

a mudez deixa todos os golpes
abaixo das bordas do cardume,
da pontaria dos bicos,
mandíbulas, dos dentes

Não ditos, o baque, a ruptura, o tapa
são nossos, só nossos, não ferem
– armadas se esquecem na rocha.

(De Alberto Bresciani, em Fundamentos de Ventilação e Apneia, publicado pela Editora Patuá)

Eis um livro repleto de poesias que tiram o nosso fôlego – aquele das superfícies -, e concedem-nos o ar renovado na profundidade de pensar sobre o que somos.

Fundamentos de Ventilação e Apneia – Editora Patuá

Bisões

E seguimos como bisões,
olhando para a frente,
em disparada, fugindo
de absolutamente nada
e de quase tudo

No caminho outros bisões
se juntam ao grupo
e continuamos todos,
aos atropelos, na mesma rota

Corremos, nós os bisões,
para onde não sabemos
em uma pradaria fictícia
que, a exemplo dos rios,
é outra a cada migração

Olhamos para a frente
e nos perguntamos,
os olhos bovinos,
se este é mesmo
o nosso lugar.

(De Alberto Bresciani, em Fundamentos de Ventilação e Apneia, publicado pela Editora Patuá)

Eis um livro repleto de poesias que tiram o nosso fôlego – aquele das superfícies -, e concedem-nos o ar renovado na profundidade de pensar sobre o que somos.

Fundamentos de Ventilação e Apneia – Editora Patuá

Cegueira irreversível

A movimentada Avenida da Liberdade, em Braga, adotou-o sem cerimónias. Cerimónias para quê? Era apenas mais um, mais um cisco a evitar que entrasse pela vista adentro. Nunca se sabe, podia ser contagioso.

Como um pedaço de lixo, trazido pelo vento, ali aterrou e foi-se incrustando na paisagem urbana, junto ao “Café Vianna”.

Mendigar foi a única saída para um diagnóstico cruel – cegueira irreversível – ainda na adolescência. Um fardo para os pais enquanto viveram. Depois, entregue à própria sorte, experimentou a caridade de várias instituições. Afinal, “caridade” tinha uma definição estranha. Entre apalpadelas e tropeções, lançou-se num mundo mais negro do que a escuridão provocada pela cegueira. Por sorte, ou imposição das circunstâncias, abriu os olhos da mente.

No seu arquivo mental, ia alojando milhares de passos: passos de gente. Uns com pressa, outros nem por isso. Havia passos apaixonados e passos mal-amados. Passadas aventureiras e passinhos covardes… E nesse passadiço de transeuntes foi colecionando pegadas…

Bem cedo, de sapatilhas e perfume barato, chegava a que encenava o papel de mulher a dias, lá em casa. Com uma muda de roupa na mochila, despia a mulher a dias e virava a das mil e uma maravilhas. Pedia um café só para poder usar a casa de banho. Mais tarde, consoante a sorte, haveria de voltar e, desta vez, pediria uns bolos para os miúdos e, mais uma vez, trocava de personagem. Mesmo sem ver, sentia-lhe o estômago revolto ao pegar numa nota amarrotada de dentro da mochila e percebia o quanto teve de engolir para matar a fome às crias. Para o empregado que a atendia, diariamente, não passava duma tarada por doces, jamais descobriria aquele dois em um.

E apelidavam-no de cego.

Reparava no empresário de sucesso. Reparava nele por causa da aflição da gravata. Mal comia, mal respirava, mal vivia, enterrado em preocupações relacionadas com o trabalho. Em casa, a esposa e os filhos de malas aviadas e ele nem percebia. Estava demasiado ocupado: mal comia, mal respirava, mal vivia o que de melhor tinha para viver… até que perdeu tudo.

E o cego era ele?

Surgiam bandos de turistas, ávidos de cliques fotográficos. Fotos em série, para mostrar nas redes sociais. Tão míopes, nem desconfiavam dos restos de gente embutidos na arquitetura paisagística. Nada que não se resolvesse… com um programa sacado da internet, claro. O ceguinho pedinte é que tinha problemas de visão.

Entregue à escuridão, às vezes sentia olhos de criança colados na sua figura velha e gasta – velha como a Sé de Braga e gasta como as pedras da calçada. Só podiam ser de criança. Eram os únicos que tinham liberdade para olhar; reparavam em tudo, sem constrangimento, e, transbordando inocência, puxavam a saia da mãe. E a mãe ordenava:

– Não te aproximes! Ainda apanhas piolhos ou coisa pior.

Se ao menos fosse um cão… um rafeiro, desses que são levados para o canil e podem ser adotados. Sortudos!

E se uma dessas crianças se lembrasse do ceguinho do “Café Vianna” e voltasse atrás para o adotar? Afinal, tinha muito mais para dar, muito mais para além das roupas velhas, das rugas, das brancas, do olhar avariado, dos ossos empenados. Possuía um coração, uma alma, um arquivo com histórias de gente – gente que passa e não vê.

Nem todas as cegueiras eram irreversíveis – achava ele. E esperou. Esperou camuflado… de calçada, calçada suja e gasta, que o tempo esqueceu.

(Suzete Fraga)

Um dos belos contos de Suzete Fraga, presente no seu livro Almas Feridas.

” Almas Feridas é a soma dos mais diversos sentimentos que acabam, inevitavelmente, por nos ferir a alma; moldados pela imaginação, os contos apresentados neste livro caminham de mãos dadas com as nossas fragilidades enquanto seres humanos.

Esta obra mergulha a sangue-frio na sede de vingança e nas relações entre irmãos (bem ao estilo de Caim e Abel), passando pelo dilema da fidelidade no matrimónio. Permite-nos ainda viajar para cenários campestres, recuar no tempo até aos anos 80 do século passado, pregar partidas carnavalescas, espreitar vidas desfeitas pelo álcool e pela violência doméstica, desvendar traições, amores desmedidos, reencontros no Além e narcisismos que levam à loucura, encarar a vida com os olhos de quem não vê, herdar veredictos cruéis, testemunhar actos verdadeiramente altruístas, ler cartas de amor, desfolhar sonhos, sentir a emoção da despedida, conviver com sogras encantadoras, descobrir o dom da humildade ou conhecer videntes muito peculiares.”

O livro pode ser adquirido diretamente com a autora, ou pelo site da editora.

Eis uma das dedicatórias mais carinhosas que já recebi.

A escrita de Suzete é uma delícia de ler – fluída, com conteúdo, emoção e intensidade.

Belíssimos contos!

Mais sobre Suzete Fraga

“Suzete Fraga nasceu no ano de 1978 em Azurém, Guimarães, e reside em Póvoa de Lanhoso (Portugal). Experimentou o árduo calejar da lavoura ainda na infância, aprendendo a usar, desde cedo, a escrita e os sonhos como um escape ou até mesmo como um meio de subsistência existencial.
Tem textos espalhados em colectâneas e antologias de várias editoras e foi distinguida em três concursos literários. “Almas Feridas” é o seu primeiro livro.” (Biografia constante na contracapa de Almas Feridas)

Abaixo, entrevista e artigo sobre a autora na primorosa revista virtual de literatura lusófona SGmag.

Clique aqui para conhecer mais sobre a autora e seus trabalhos em seu perfil do Facebook

Má criação

– Você tem que parar de fazer isso comigo.

– Você é meu. Se eu quiser posso até matar você.

– Cara, além de leviano, você não tem um pingo de compaixão.

– Por que eu teria? E logo com você?

– Você me faz parecer um idiota, sabia? Estou cansado de servir aos seus caprichos, às suas decisões esdrúxulas…

– Você reclama demais. Me cansa.

– Como não reclamar? Tenho minha personalidade. Quero decidir minha vida de acordo com o que eu sou, e você não respeita isso. Quem você pensa que é?

– Deus.

– Ridículo! Não tinha nada mais original pra dizer, não? “Deus”! Por isso que tá aí, mergulhado na mediocridade.

– Cara, toma cuidado com o que você fala…

– Por que cuidado? Que diferença faz o que eu falo? Você nem vai ouvir se não quiser…

– Boa ideia!

– Hum-hum-hum.

– Pronto.

– O que foi? Ficou mudo?

– Ah! Espera. Ficou sem graça assim. Prefiro ouvir suas bobagens.

– Hum-hum.

– Okay, okay. Fala agora.

– Você é louco.

– Não, não. Louco não. Apenas tenho poderes especiais sobre criaturas como você.

– Quero liberdade.

– Pra quê? O que será de você se eu não te guiar, se eu não te disser o que comer, falar, fazer, onde ir, ou mesmo se vai entrar em depressão ou ganhar uma loteria.

– Eu tenho minha identidade, cara. Você não entende?

– Não é problema meu.

– Quê? Como assim não é problema seu? Se isso não é, certamente falta de coerência é um grande problema seu, meu irmão.

– O que você quer dizer com isso?

– Ser supremo, se você comanda a minha vida e construiu a minha história, você tem que respeitar o que você mesmo construiu. Captou? Ou quer que eu desenhe na folha ao lado?

– Espera!

– Hum-hum-hum.

– O que foi? Quer dizer algo mais? Ah, tô adorando isso!

– Pronto. Agora vê se apenas me obedece e para de me dar liçõezinhas de moral. Captou? Ou quer que eu te apague já na folha ao lado?

– Além de medíocre, sua criatividade tá bem ruim, né? Repetindo o castigo?

– Cara, de onde fui tirar você?

– Você não é o todo-poderoso? Não sou eu que tenho essa resposta pra você.

– Se eu quiser que você tenha, você terá.

– Caramba, como você é arrogante! Desça dessa escrivaninha, suba naquela estante, ou vá passear lá fora, mas aprenda a ser gente antes de ser criador.

– Ai! Não aguento mais isso.

– Calma cara! Também não precisa ficar assim…

– Fica calmo, poxa! Nunca vi você chorar. Não falei por mal. Vai lá, toma seu remedinho…

– Não sei mais o que fazer com você.

– Já notei. Mas isso acontece com qualquer um da sua raça. É um apego que apaga a gente.

– Dediquei tanto tempo a você…

– Eu sei, eu sei… Você se esforçou, mas já deu pra gente, cara.

– Não. Não posso.

– Você precisa deixar que eu siga meu próprio caminho com você, ou me liberta de uma vez e parte pra outra. Você sabe que não serei de mais ninguém. Vou morrer aqui, na liberdade das próximas folhas em branco.

– Não fica assim. Cata outro caderno, cara, e arruma outra história, ou a mesma história com outra criatura, mas bola pra frente!

– Hei! Oi! Cadê você?

– Não vai voltar mais? Nem pra bater um papinho? Sinto falta da sua confusão… pelo menos eu existia.

– Caramba! O que eu fui fazer?

Quem sou eu

Sou fêmea de uma espécie singular.
Não, não sou do lar, sou multilugar.
Sou do mar, do luar, talvez um Avatar.
Às vezes pairo no ar.
Invento horas, amo e odeio o tempo,
estico-me aos mil espaços que invento.

Gosto de ciência, maquiagem e filosofia;
neurociência, dança do ventre e astronomia;
literatura, adrenalina e carros;
qualquer shot, livros e sapatos;
tinto seco, beijo na boca e pimenta;
Galileu, Vogue, mas Tititi não me entra.

Sou vaidosa, feminina e corro de salto.
As minhas unhas eu mesma esmalto.
Amo ouvir e ler gente inteligente.
Homens sábios seduzem-me facilmente.
Preconceitos e fofocas me dão aflição.
Não gosto de falar palavrão, porque não.

Não cresci pensando em casar e ter filhos.
Estudei, batalhei e ainda encaro empecilhos.
Sou independente e carente só de conhecimento.
Gosto de flores plantadas e jantares à luz do vento.
Sou a parceira e não a mulher de alguém.
Sou mãe apaixonada e, do amor, dócil refém.