Anjo Perdido

Uma tolice, mas Verônica ainda esperava seu presente de aniversário. Quinze anos, afinal. Seu presente (passado e futuro talvez) era, no entanto, ser ignorada pela sua família. A festa? Nada original, apenas mais uma das guerras entre seus pais. Dessa vez, resultou em objetos quebrados pela casa, alguns hematomas na mãe e um corte superficial com uma faca de cozinha no braço do pai.

A menina se acalmava no quarto com seu pó fabuloso. Havia cerca de um mês que encontrara paz e conforto em sua casa, dentro de pequenos saquinhos, cujo conteúdo aspirava sem remorsos.

Não era a primeira e nem a segunda vez que seu mundo implodia. E também não era mais novidade aquela solução, após os inúmeros apelos que os pais se recusaram a ouvir.

Solitária, a menina brindava cada guerra dos pais com o “pó da paz”, como apelidou a cocaína.

Aquela “comemoração” dos seus quinze anos foi a gota d’água para que ela partisse para a fase seguinte do que passara a chamar “projeto ficar de boa”.

A menina dizia para sua amiga Nina que tinha todo o direito de temperar as fortes emoções que os pais lhe ofereciam com algo ainda mais intenso. Nina apresentou-lhe a cocaína. Verônica queria mais. Nina, então, apresentou-lhe Cupido.

Com as mãos tremendo, ligou naquela noite mesmo para o futuro que a esperava.

– Alô!

– O… oi! Você é o Cupido?

– Sim. Quem tá falando aí?

– É… meu nome é Verônica. A Nina me falou de você, falou pra te procurar.

– Quanto anos você tem?

– Estou fazendo 15 hoje. Quero… preciso da sua ajuda.

– Sei. Como você é? Magra, gorda, alta, baixa, loira? Manda uma foto aí pelo celular.

Verônica, ansiosa com a situação e estimulada pelo efeito da droga, não hesitou. Tirou a foto e enviou.

– Garota, tu vai dar lucro, hein… Dá um jeito de me encontrar amanhã, depois do almoço, naquela livraria perto da casa da tua amiga, a Nina.

Verônica desligou o telefone. Tremia e ria ao mesmo tempo. Não sabia dizer se era medo ou euforia o que sentia. A excitação causada pela droga a consumiu, até que uma torrente de lágrimas a fez adormecer.

Pela manhã, a garota preparou a mochila com algumas peças de roupa, além do material da escola. Avisou à mãe que passaria a noite na casa de Nina. Logo após o almoço, o pai a deixou em frente ao colégio. Ela esperou que o carro do pai desaparecesse no final da rua e foi a pé até a tal livraria.

Depois de alguns minutos folheando em branco as páginas de vários livros, notou um homem acercando-se.

Ele parecia jovem. Beirava uns trinta anos, mas estava vestido como um adolescente. Não causou estranheza a ninguém sua aproximação da menina. Ele a reconheceu pela foto.

– Oi, gata!

Verônica olhou assustada. Queria sair correndo dali, mas estava decidida. Precisava dar continuidade àquele mundo que experimentara, tão estimulante quanto sereno. Além de uma solução para sua vida, era também um castigo para seus pais.

– Oi… Cupido?

– Sim, gata. Quem mais poderia ser?

– Me diz o que é essa coisa aí de Anjos Perdidos? O que… o que eu tenho que fazer? – perguntou Verônica, nervosa, porém sem rodeios.

– Pega esse livro. Tem um bilhete com o horário e o local que seu cliente vai te buscar. Vai ser seu teste. Dá um jeito de parecer mais velha. O cara gosta de anjinhos, mas não quer encrenca. Tem aí uns baseados também, pra te ajudar a relaxar. Não quero saber de nenhuma novata surtando.

O cafetão entregou um livro velho para Verônica, com um buraco no miolo, onde estava o tal bilhete e dois baseados já prontos.

Antes de anoitecer, Nina já a esperava em sua casa. As garotas espalharam um pouco de cocaína na penteadeira de Nina e aspiraram. Verônica rolou o batom no pó e o guardou na bolsa.

Colocou um vestido justo e curto, salto anabela 15 e uma maquiagem pesada. Quem olhasse não daria menos de vinte anos para a menina.

Pegou um táxi e foi para o endereço do bilhete. Local ermo. Viam-se poucas pessoas transitando, a maioria prostitutas e pedintes. Entorpecida, a menina não se preocupava e não demonstrava medo algum. Logo um carro parou a seu lado. Estava muito escuro e Verônica nem prestou atenção se o modelo do carro era o descrito por Cupido.

A porta se abriu e a garota entrou. Seu coração subia pelo esôfago por conta da adrenalina. Verônica era virgem e, apesar de estar dopada, a ideia de ter a sua primeira relação sexual como uma prostituta a perturbava. Começou a sentir náuseas e a tremer.

– Preparada para a festa, gostosa?!

Quando Verônica ouviu a voz daquele homem, sentiu seu estômago revirar, e um arrepio de terror percorreu seu corpo. Olhou assustada para o homem no volante e viu, ali, com a cara mais patife que um homem poderia ter, o seu próprio pai.

O homem parecia tão inebriado com a situação, e a garota estava tão diferente, que não reconheceu naquela prostituta a própria filha.

A menina não sabia o que pensar. Sua revolta e seu desgosto foram tão profundos, que lutou por um autocontrole suficiente para não reagir ou falar qualquer coisa naquele momento. Tudo aquilo ganhou mais um sentido para Verônica: vingança. Já não se tratava apenas de buscar emoção ou chamar a atenção de seus pais. Estava a caminho de uma vingança crua.

Seu pai dirigia, falando obscenidades que provocavam um misto de nojo, cólera e autopiedade em Verônica. Por sorte, ele ainda não a tocava.

Ao chegar ao motel, Verônica saiu do carro, desviando o rosto, e dirigiu-se rapidamente ao banheiro. Lá acendou um baseado e deu um profundo e longo trago. Foi tomada por um choro incontrolável! Sua euforia foi substituída por uma dolorosa melancolia. Tirou o batom da bolsa.

– Tudo bem aí, ninfetinha? Não demora. Tempo aqui é dinheiro, você sabe.

Passaram-se mais de cinco minutos e o homem, impaciente, deduziu que a garota o esperava no banheiro, com algum tipo de surpresa agradável. Com um sorriso cínico no rosto, o homem abriu a porta do banheiro e deparou-se com sua filha nua, caída em meio a uma poça de sangue. Seus punhos exibiam cortes profundos. No espelho, rabiscado em batom vermelho, leu:

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