Alerta

Esse som me dá sono
sem sonhos.

Silêncio!
Quero acordar.

“Presto atenção no que eles dizem,
mas eles não dizem nada” –
falou o Engenheiro.

Nada dizem ainda,
nem no Hawaii,
nem aqui.

Mens alerta in corpore pateta –
é prisão perpétua.
Mens pateta?
É pena de morte na certa.

Cada um é de si o juiz.
Mão na pena,
decreto a pena
e sou o condenado
às pedras de um regime
fechado.

(Sandra Boveto)

From pexels

Líquido seco

líquido
desfaz-se e busca a solidez
na solidão eterna de um momento líquido
– Barman ou Bauman?
– Ambos, por favor!

há pontas
há ondulações
há mágicos atritos
que arranham
e acariciam

líquido seco
que o caos acalma
que a calma tinge de guerra
com a cor do sangue
sem a dor da alma

a língua adormece aos poucos
entrega-se à morte
do mundo que não vive
língua morta de uma mente viva
que nunca dorme
que nunca morre
que sangra na taça

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Submersa

Sobrevida submersa,
sem resgate, sem futuro.
Falso tempo é o que resta.
Neste mar, sou náufraga
em metáforas
sem rumo.

Pensamentos expulso,
escusos.
Sentimentos em conchas resgato.
Do abismo profundo,
obscuro,
emerge nau
de universo impuro.

Sulca o velho mar o corpo,
salgam antigas lágrimas a alma.
Para aquela nau não há porto,
para este espírito não há calma,
senão a do horizonte
morto.

Sinto a seiva do sal que me salva,
sorvo a paz que substitui a vida.
Ao negro abissal
desfaço-me, sou água
em metáforas perdida.

(Sandra Boveto)

crédito da imagem: Robert Cornélius photography

Não abra a caixa

Onde está a realidade?
Não, ela não está aqui
lacrada nesta caixa.

Sou o tal gato vivo-morto,
superposição quântica.
Velada,
indefinida,
estou morta
e estou viva.
Ao observador sou tudo
e nada.

Não abra a caixa!

O tempo?
Ora, o tempo…
Não o tenho aqui,
agora.
Também não está lá fora.
Não o entendo.
Ele fixa,
mas não é fixo.
Contínuo, é peremptório.
Muda e registra,
Faz muda e mata,
é branco e marca.
Mancha e limpa,
sua marcha é limpa.
Ainda assim, a nódoa fica.

Não, não abra a caixa!

Cicatrizes
invencíveis,
as piores se mostram e revelam
o que só a morte cessa.
Depois dele,
do tempo,
depois de muito dele,
vejo que não é o tempo,
mas os vermes,
que apagam as cicatrizes,
iguarias
que o tempo serve aos vermes.
Elas vivem além de você,
eles não sobrevivem ao tempo.
Sim, os vermes.
O tempo os devora
com seus estigmas corroídos.

Não abra a caixa!

Engane-se
por um tempo.
Não faz mal.
Ao tempo
mal nenhum se faz.

(Sandra Boveto)

crédito da imagem: kevin Connery ( Keradwc)

Súplica

Que as palavras me saibam
e me suguem a morfologia,
que me cuspam fluida,
tornem letras os fluidos,
e sangrem o meu conteúdo.

Que esse vício me quebre
me esfacele inteira
e me reconstrua fractal
ou alfabeto imortal
com dez trilhões de letras
em vez das células mortas
de um futuro decomposto

Que eu seja substantiva
simples, concreta
e viva
nas palavras compostas
abstraídas ou justapostas
a meu gosto

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Cativa

O desafio não é escrever isso ou aquilo
o desafio é viver o que se escreve
ou aquilo que quer ser escrito

há um desejo que pede
anseia
esperneia
exigindo registro

é desafio da vida
que busca a luz
a fenda
a réstia
a brecha de mim escondida

o braço se estica
mas não alcança a chave
que está lá

bem lá
presa no cinto do carcereiro

e a cada noite
o dia vira morte não escrita
aí fora
aqui dentro
no cativeiro da espera

Photo by Miguel Á. Padriñán from Pexels