Submersa

Sobrevida submersa,
sem resgate, sem futuro.
Falso tempo é o que resta.
Neste mar, sou náufraga
em metáforas
sem rumo.

Pensamentos expulso,
escusos.
Sentimentos em conchas resgato.
Do abismo profundo,
obscuro,
emerge nau
de universo impuro.

Sulca o velho mar o corpo,
salgam antigas lágrimas a alma.
Para aquela nau não há porto,
para este espírito não há calma,
senão a do horizonte
morto.

Sinto a seiva do sal que me salva,
sorvo a paz que substitui a vida.
Ao negro abissal
desfaço-me, sou água
em metáforas perdida.

(Sandra Boveto)

crédito da imagem: Robert Cornélius photography

Quem dera transportasse a própria ida…

Cultivava os pés no solo do caminho para não perder os passos há muito já perdidos. Os braços, as embarcações, os embaraços da vida erguidos num ato de rendição ao esquecimento. O sono dobrava as esquinas do corpo, dobrava as pernas, dobrava a água nos olhos de cada filamento luminoso, porque era de promessa e vento a chuva que se fazia no lado de dentro das retinas. Era um retorno isento de saudade, a lágrima da sedação, guardada para a sede, após o dormir do rosto – mais tarde – de tudo aquilo que resiste no inesgotável furto de futuro, da solidão de sóis… Eram as solas doídas no escuro das manhãs, a se encolherem no recolher de todos os escudos. Cegos. Sórdidos. Mudos. A ajuda na planta dos pés, moída de muda e de escolha. O casco machucado dos cavalos. As bolhas de sabão de sábado a pousar nos ontens, intactas, sobre os sapatos limpos.

(De Patrícia Claudine Hoffmann)

Fonte da imagem: post da autora no Facebook

Detalhes humanos

Tempos confusos esses em que os humanos habitam o planeta. Confusos humanos perdidos em sua existência inconsciente e inconsequente sobre um esférico presente.

Não, Fulano, esse presente não está embalado. Pare de rasgar e destruir o que você considera embalagem, ou laços e fitas sem importância. Você não encontrará nada que valha tantas penas abaixo disso. Os detalhes colocados na superfície do presente não são apenas enfeites, e não são descartáveis. São elementos que o integram e sustentam sua vida, e deles fazem parte os outros mais de sete bilhões de detalhes humanos como você. 

Talvez você não saiba, mas, sempre que uma vida, humana ou não, é desrespeitada, desvalorizada, rasgada e jogada no lixo, o presente torna-se menos presente na sua vida equivocada. Há menos presente e mais passado a cada pedaço de planeta rasgado, e sua vida está no presente… neste presente.

Fonte da imagem: página Hora da Ciência (Facebook)


Seu maior engano, Beltrano?

Você tenta arrancar a quota do presente que não lhe pertence da mão do outro a qualquer custo. Na sua mente egocêntrica, você acredita ser algo mais do que é qualquer outro humano a quem foi precariamente entregue esse presente, e furta-se às regras básicas de uso de tudo que pertence a todos: ética, empatia, respeito e responsabilidade.

Veja como seu espírito é ilógico e ignorante: você acredita que a embalagem do esférico presente não tem valor, mas a embalagem da sua espécie tem. Acredita que a cor e a forma da sua própria casca, ou o invólucro que ela utiliza para usufruir o presente, são mais importantes que o seu conteúdo, ou que determinam algum tipo de padrão de qualidade superior.

Imbecil que é, você viola, mata e destrói cada pedaço do presente ao seu alcance, a fim de dominá-lo. Mas se você não acordar, sabe qual será seu futuro, Sicrano? Será o de uma embalagem vazia e descartável dominando um pedaço de esfera arruinado, e apenas pelo tempo que sua breve vida ou o resultado da sua ignorância permitirem.

(Sandra Boveto)

Não abra a caixa

Onde está a realidade?
Não, ela não está aqui
lacrada nesta caixa.

Sou o tal gato vivo-morto,
superposição quântica.
Velada,
indefinida,
estou morta
e estou viva.
Ao observador sou tudo
e nada.

Não abra a caixa!

O tempo?
Ora, o tempo…
Não o tenho aqui,
agora.
Também não está lá fora.
Não o entendo.
Ele fixa,
mas não é fixo.
Contínuo, é peremptório.
Muda e registra,
Faz muda e mata,
é branco e marca.
Mancha e limpa,
sua marcha é limpa.
Ainda assim, a nódoa fica.

Não, não abra a caixa!

Cicatrizes
invencíveis,
as piores se mostram e revelam
o que só a morte cessa.
Depois dele,
do tempo,
depois de muito dele,
vejo que não é o tempo,
mas os vermes,
que apagam as cicatrizes,
iguarias
que o tempo serve aos vermes.
Elas vivem além de você,
eles não sobrevivem ao tempo.
Sim, os vermes.
O tempo os devora
com seus estigmas corroídos.

Não abra a caixa!

Engane-se
por um tempo.
Não faz mal.
Ao tempo
mal nenhum se faz.

(Sandra Boveto)

crédito da imagem: kevin Connery ( Keradwc)

Útero de pedra

O maior perigo da vida
é se ter um útero de pedra
na hora do rebento nascer.

É se ter um peito fechado
à própria existência de ser,

é se construir de nuvem
na hora do sol aparecer.

O maior perigo da vida
não é morrer antes de ser,

o maior perigo da vida
é só o silêncio saber.

Ainda no útero materno
quis o homem ser pedra;

quis o homem sofrer
os seus nódulos de pedra.

A vivacidade do homem
ao entregar-se à pedra
determinou-o, em vida,
a ter um útero de pedra.

Um sólido útero-mineral
em um rogo peditório.

Um útero sólido e notório
como uma lápide sepulcral

E desde aquele dia
a semente do útero
tem dado um fruto de pedra.

E na frialdade da pedra
este fruto se avilta
mas não deixa de ser pedra.                    

E quando a porta do útero
se abre para a vida,
o que nasce não é homem:
mas pedra lascada ou polida.

E a vida, instigada,
rasga por dentro seu velcro
de veias, de sangue, de vida
e abre-se por fora em pedra.

E foi assim que nasci:
não como nascem
os filhos de hora primeira.

Eu nasci
como nascem
os filhos de mãe parideira.

Fui lançado pra vida
como folha trepadeira,

fui jogado pra baixo
como rama rasteira,

fui deixado de lado
como vento passageiro.

E assim fui nascido:
não como nascem
os filhos de vida inteira.

Eu nasci
como nascem
os filhos de mãe-poedeira:

trazido para a vida
como um risco de carvão,

tangido para a terra
como um ressequido grão

e às vezes, desmerecido
do acalanto de uma mão.

A minha mãe parideira
cansada de tanto parir
quis uma pedra em seu útero
para nunca mais se partir.

E meu pai, um tanto enfático,
pôs-se a recusar.

E deu à ela, (em sonho fálico)
um nova pedra pra cuidar.                                                                    

E foi assim que nasci,
não como nascem as pedras
prontas para resistir.

Eu nasci pra ser rasteiro,
pra nunca me levantar,

nasci pra ser derradeiro,
pra nunca longe chegar.

O meu próprio nascer
foi feito para selar.

E quando viu que eu vinha
a sua pétrea-vida cerzir,

a minha mãe parideira
se desabou a sorrir.

Imaginava-se velha
e imprópria para parir,

mas em seu útero de pedra
teve que me gerar, me nutrir.

E foi assim que nasci,
ou melhor: fui sacudido.                    

Quem nasce como eu nasci
não nasce: é expelido!

E depois que eu nasci
com esta substância de lava,
uma lava de pedra e palavra
veio-me em fúria ferir.

E até hoje não me lembro
se a minha mãe parideira
tenha voltado a sorrir.

Só me lembro do útero-pedra
e da minha ânsia de existir.

De minha pequena e rasa vida
sem peso pra expandir,

se aglutinando na vida
sem força pra resistir.

Das sedimentares paisagens
que ainda crispa o olhar,
lembro-me do despertar pra vida
e o choro do primeiro olhar.

Lembro-me de minha mãe parideira
a embalar-me de mansinho,

uma lasca de pedra franzina
sem a sua força constumeira;

um répobro e sem feitura:
pedra pouco conhecida.

Eis a minha releitura
pra minha leitura de vida.

Eu mesmo não sei dizer
se em toda a minha vida
vi a vida se enternecer.

Eu mesmo não sei dizer
se em toda a minha vida
fiz algo por merecer.

Só sei que do útero-pedra
esta pedra canga nasceu:

pedra-pétrea-pétrea-pedra
pétrea-pedra-pedra-pétrea

Pedra de núcleo maciço
mas de pouquíssimo arremesso,

Pedra que desde o começo
não teve um sonho inteiriço.

Pedra sem sustentação
e de desprezível valor,

pedra-pétrea sem valor
e com víscera de solidão.

Pedra de pouca importância
petrificada em areia,

pedra-pétrea que anseia
por um viver sem ânsia.

Pétrea-pedra sem referência
jogada, largada ao chão.

Pedra que ainda guarda querência
de um humano coração.

OXORONGA, Alufa-Licuta. Útero de pedra.
Editora do Carmo. Brasília-DF.

Bio/Grafia
Alufa-Licuta Oxoronga, inconsútil vivente. Nascido em útero envelhecido. Em tempo de calmaria. Uterinizado por dentro feito magma. Feito avessado moinho. Desde molecote tem parido angústias. Tem gestado grãos em avessamento de moinho. Ainda menino se achou rabiscador de terreiros. De palavras. De desenhos. De sonhos. O palavreado mais parecia brisa ao entardecer. Os desenhos, orvalhos se entregando ao sol. Os sonhos, caminhos brotados de tempo. Mais tarde se descobriu apanhador de silêncio e solidão. De tanto escrever, pintar, sonhar e sentir, pulsou para dentro de si um gosto amargo de ser. De um existir-existindo que mais parecia negros escorpiões nas fendas escuras das paredes de taipa. Mais parecia a mudez de uma madrugada em tempo de intermitente chuva. Desde então tem trilhado o inóspito caminho da esperança. Em espera e andanças. Em agônicos (e diários) sentires. Dos esgarçados verbos e do entrelaço da fala e da escuta tem feito o seu existir.

(Alufa-Licuta Oxoronga)

Céu e mar

Fui ao topo e amei
essa tua maciez,
arrepios esguios
entre minhas mãos.
É pura verdade,
fui como ébrio
ao teu cabelo,
cheiroso de desejo,
testemunha de
nossa paixão.
É pura a verdade,
pois estou cativado,
pelo toque delicado
de amor absoluto,
no mais lindo encontro,
no exato ponto, onde,
sob as águas do mistério,
nos amamos submersos,
afogados na emoção.

(Roldan Neto)

fonte da imagem: post do autor em sua página do Facebook

Clique para conhecer mais trabalhos do autor em sua página “Poesia Estruturada”, no Facebook.

Móbiles de amizade

(Um belíssimo e gentil soneto-presente recebido do talentoso poeta e amigo Alufa-Licuta Oxoronga, inaugurando seu espaço no blog)

O aporte da vida, em inevitável panfleto,
É um caminho traçado em pedras de cais,
Pétalas lançadas em improváveis quintais
Pavilhões erguidos a um sopro de coreto.

A nervura da vida, em desenho de soneto,
Tem escrita de lua, de mar e solos eluviais
Cintila os afetos em descortinos comensais
Em um ruflar de carinho por Sandra Boveto.

Em candelabro de cores, em móbiles de ser,
As nossas crisálidas tem rico amalgamento
Tal qual um artista, aos recurvos do atelier,

Escolhe cada cor em recursos de pigmento,
Aprouve, Sandra, em um novo blog enaltecer
O Vi(vendo) a vida em letras, enorme talento.

(Alufa-Licuta Oxoronga)

Crédito da imagem: Everton Medeiros

Abaixo uma biografia sui generis, poeticamente descrita pelo autor:

“Bio/Grafia: Alufa-Licuta Oxoronga, inconsútil vivente. Nascido em útero envelhecido. Em tempo de calmaria. Uterinizado por dentro feito magma. Feito avessado moinho. Desde molecote tem parido angústias. Tem gestado grãos em avessamento de moinho. Ainda menino se achou rabiscador de terreiros. De palavras. De desenhos. De sonhos. O palavreado mais parecia brisa ao entardecer. Os desenhos, orvalhos se entregando ao sol. Os sonhos, caminhos brotados de tempo. Mais tarde se descobriu apanhador de silêncio e solidão. De tanto escrever, pintar, sonhar e sentir, pulsou para dentro de si um gosto amargo de ser. De um existir-existindo que mais parecia negros escorpiões nas fendas escuras das paredes de taipa. Mais parecia a mudez de uma madrugada em tempo de intermitente chuva. Desde então tem trilhado o inóspito caminho da esperança. Em espera e andanças. Em agônicos (e diários) sentires. Dos esgarçados verbos e do entrelaço da fala e da escuta tem feito o seu existir.” (Alufa-Licuta Oxoronga)

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Melancolia

Hoje a vejo assim, destelhada,
Por intrusos fantasmas, habitada;
Nem de longe lembra a morada
Daqueles idos tempos felizes.

Morreu até o velho cipreste,
Que ela pintou da janela oeste,
Sob os sussurros da brisa leste,
Numa explosão de matizes.

Depois que a vida foi embora,
Surrupiando os risos de outrora,
Já não fulgura qualquer aurora
Nas águas mortas do pântano.

O tom onipresente da podridão,
Aumenta o vazio no meu coração,
Restando apenas uma breve noção
Dos áureos tempos de encanto.

(De Nardélio F. Luz)

Poema constante na contracapa do livro A Clausura de Kematian e outros contos insólitos.

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