Prefácio

Nada Mais

Prefaciar poesia, que perigo. Corre-se o risco de adocicar a fruta, de melodiar a harmonia. Poesia prescinde de introdução. É luz de parto. É a luz do palco. O resto é firula e talco, dos quais, justamente, estamos fartos. Exaustos.

A poesia de Sandra Boveto é um testemunho deste cansaço impessoal, contracorrente de uma enorme concentração da realidade. “O desafio é viver o que se escreve”, tanto a vida do desejo insatisfeito quanto a força massiva da gravidade, torpe, taxativa e prepotente das piracemas estéreis. Mas não é só do desânimo que se desabriga, prossegue. É do estranhamento das feridas que se abrem e se fecham. Tectônicas, quentes. Corvos na alma vazia.

A poesia deste livro é uma bola de pêlos e de perguntas intragáveis que a língua toca e acaba engolindo. É um canto à loucura benigna, ao temperado destempero. É carta suicida, “pronta pra entender a vida”. Na poesia, o corpo é carcaça e vulcão, e é ele que sopra os ruídos ao redor das vozes. A lava cospe da boca e é do fora que se afoga, do que se desmancha no ar, do drinque seco da sociedade líquida. Um fluído de humores, uma estalactite dos romances que são contos que são poema, ponto, que é sopro, uma gota na aridez da vida.

Os poemas de seu Entre os Lábios do Avesso parecem surgir um de dentro do outro, espelhos que se desentendem. Há humor nesta inspiração embriagada. São mil dedos gatunos, lunáticos. Há humor, e apesar disso, há um riso, “instante ínfimo em que nada é assim tão importante”.

São círculos de um compasso que desenha as crateras da lua – cicatrizes inocentes, alegres de vácuo, livres de História, deste satélite insistente que há bilhões de anos quase tocava o nosso planeta, amante e sedutora, e que se distancia um trago a cada ano, como que buscando um último capítulo.

É disso e daquilo, a poesia recorrente deste livro. E no entanto, a leitora saberá que não: catarse & altitude, carne & linguagem, suco & fibra, infinito & eternidade, ensaio & queda, pedra & muxoxo, ela busca e engole a si mesma, assume as rédeas do próprio descontrole e sua forma frágil desvirtua os índices possíveis da balança. É um segredo da inspiração lúcida do vinho, um retorno à nostalgia da esfera, ao sangue da melancia grávida.

A tinta da autoria, da responsabilidade, dessangra um cansaço antigo quanto o próprio tempo. Seu umbigo é o sonho das primeiras lascas, das espirais em estado de natureza. A insistência costuma ser uma virtude e não há literatura que não a cometa. Esta é sem dúvida a seiva desta uva, o horizonte que a nau faz de porto, e mais nada.

Tiago Novaes