Detalhes humanos

Tempos confusos esses em que os humanos habitam o planeta. Confusos humanos perdidos em sua existência inconsciente e inconsequente sobre um esférico presente.

Não, Fulano, esse presente não está embalado. Pare de rasgar e destruir o que você considera embalagem, ou laços e fitas sem importância. Você não encontrará nada que valha tantas penas abaixo disso. Os detalhes colocados na superfície do presente não são apenas enfeites, e não são descartáveis. São elementos que o integram e sustentam sua vida, e deles fazem parte os outros mais de sete bilhões de detalhes humanos como você. 

Talvez você não saiba, mas, sempre que uma vida, humana ou não, é desrespeitada, desvalorizada, rasgada e jogada no lixo, o presente torna-se menos presente na sua vida equivocada. Há menos presente e mais passado a cada pedaço de planeta rasgado, e sua vida está no presente… neste presente.

Fonte da imagem: página Hora da Ciência (Facebook)


Seu maior engano, Beltrano?

Você tenta arrancar a quota do presente que não lhe pertence da mão do outro a qualquer custo. Na sua mente egocêntrica, você acredita ser algo mais do que é qualquer outro humano a quem foi precariamente entregue esse presente, e furta-se às regras básicas de uso de tudo que pertence a todos: ética, empatia, respeito e responsabilidade.

Veja como seu espírito é ilógico e ignorante: você acredita que a embalagem do esférico presente não tem valor, mas a embalagem da sua espécie tem. Acredita que a cor e a forma da sua própria casca, ou o invólucro que ela utiliza para usufruir o presente, são mais importantes que o seu conteúdo, ou que determinam algum tipo de padrão de qualidade superior.

Imbecil que é, você viola, mata e destrói cada pedaço do presente ao seu alcance, a fim de dominá-lo. Mas se você não acordar, sabe qual será seu futuro, Sicrano? Será o de uma embalagem vazia e descartável dominando um pedaço de esfera arruinado, e apenas pelo tempo que sua breve vida ou o resultado da sua ignorância permitirem.

(Sandra Boveto)

Sobre porões e Ciclopes Sicilianos*

Acredito que nada coloque mais medo no ser humano do que olhar para si mesmo – aquele terror de ver um monstro atrás da porta, embaixo da cama, em lugares escuros, escondidos, cheios de teias de aranha empoeiradas, ou sob lençóis brancos jogados sobre a mobília encardida e abandonada.

Muitos preferem recuar, afastar-se desse quarto obscuro, antes mesmo de abrir a porta. E alguns fogem e se enclausuram dentro de celas de telas luminosas, que ofuscam a humanidade nelas escondida.

Outros trancam seus porões e entregam a chave (e o juízo) a seres superiores, os mais diversos, a depender de cada credo, fazendo deles faxineiros espirituais, responsáveis únicos pela sua limpeza e conservação.

E há os que saem de casa, à caça de vizinhos, para, de fora, olhar e analisar a intimidade de seus lares, esquadrinhando mentalmente cômodos nunca visitados, não percebendo que, de fato, o que seus olhos míopes enxergam são espelhos.

Ora, claro! De onde mais sairiam os parâmetros para avaliar-se o que nunca se viu? No momento em que se julga aquilo que foi moldado e habita entre paredes alheias, utiliza-se como referência a própria arquitetura. Então me diga, são aposentos sórdidos e sombrios ou asseados e límpidos os que você vê, lá fora de você?

A resposta é “nenhuma das anteriores”.

Entenda, meu caro, nada é puro e, mais, entenda também que porões alheios não precisam ser julgados pelo seu olho caolho, especialmente, se você desconhece seus próprios cantos sombrios.

Apenas dê meia volta e retorne para dentro de você e limpe, limpe, limpe muito seu próprio porão. Retire os lençóis, as teias de aranha, abra as janelas e permita que o ar novo entre. Aproveite a luz que lhe invade e cace seus monstros, sejam eles Mogwais pentelhos ou mesmo uma Hidra de Lerna.

Essa odisseia é sua. Manter seus aposentos limpos e derrotar seus monstros, ou, pelo menos, colocá-los sob controle, é tarefa árdua, contínua e sua. E enquanto houver casa, haverá pó para espanar e monstros para enfrentar.

O inadmissível é a resignada ignorância de si mesmo. Isso é algo nefasto, pois inibe a evolução espiritual, mantém a alma engatinhando e acreditando, como um bebê, que apenas o que sê vê é o que existe.

Se eu não vejo meu monstro, ele não existe. E vou além. Para que ele não apareça, inventarei e me ocuparei de monstros-amigos imaginários, que vivem em casas alheias e me mantém, covardemente, distante dos meus próprios demônios.

Photo by Ray Harryhausen – Cyclop

Assim, meu Ciclope Siciliano cresce, toma conta do porão que nunca vejo, alimenta-se da sua invisibilidade e multiplica-se. E o quarto esquecido não é mais suficiente para abrigar a família de monstros que, então, começa a invadir os corredores e, aos poucos, o resto da casa, até sair pelo mundo e devorá-lo.