alta tensão

não tenho botão liga/desliga
desligo só na tomada
depois
não ligo pra mais nada

mas tenho botões digitais
de sintonia fina
e por ser menina
tenho um botão a mais

também há botões ilógicos
de sintonia grossa
adaptável ao meio
dou a resposta

mas não só de botões sou feita
há sensores
circuitos
conexões
– para esses não há botões
eles resistem a pressões mal calibradas
desajustadas
atrevidas

sou máquina com autoajuste
de carcaça perecível
meio acabada
sofrível

é de tanto preservar circuitos
o benefício vale o custo
a tensão é alta
sem resistência
posso dar curto

cara loucura

dentro de mim há um enigma
olho pra fora
busco a cura
não resisto
quero a loucura
essa que cura
loucura benigna
pois quando louca
sinto-me sã
salva da lucidez que me enlouquece
dessa lucidez que me adoece

quero a loucura
cega
surda
e vã

sim, vã
o que faz sentido maltrata
o significativo não mais me arrebata
vou me ajustar a essa vida insana
não resisto
tiraram-me a gana


não, não é isso
fui leviana
quero a lucidez
a mais cara loucura
volto à lucidez
e me entrego à tortura

que doa
que maltrate
ou que me mate
mas confio à lucidez
o meu resgate

O que é Poetrix

Poetrix (s.m.) é poema com um máximo de trinta sílabas métricas, distribuídas em apenas uma estrofe, com três versos (terceto) e título. Quanto à sua forma e conteúdo, deve ser composto conforme dispõe a Academia Internacional Poetrix em seu texto institucional: DIRETRIZES DA AIP – Como compor um bom Poetrix.

AIP – Academia Internacional Poetrix

A AIP – ACADEMIA INTERNACIONAL POETRIX foi criada em 01/07/2020 e teve sua origem no Movimento Internacional Poetrix, que existiu no período de 2000 a 2020.

A AIP tem por objetivo contribuir para a propagação do gênero literário POETRIX, através de ações de âmbito nacional e internacional.

Conheça o site da AIP, clicando aqui.

Orelha

Entre os lábios do avesso, cujos poemas conheci pela internet, dá a medida de sua autopercepeção

o cansaço tem o aço

que eu não tenho

a poeta é um ser que viaja para dentro de si para buscar imagens e palavras e, quando lavra as ideias, sempre as pensa diferente do que são em verdade. No caso dos poemas em questão, eles se revelam mais aos olhos dos leitores, do que da própria autora. E é assim que tem de ser: a poesia que não deixa nada para os leitores, morreu antes de nascer, na saída de tudo que se sabe.

Os textos trazem um conjunto de perguntas aos leitores, perguntas sem respostas, mas que num mar de aliterações e assonâncias fazem com que o poema soe música aos ouvidos que de quem viaja pela leitura deles. Seus textos tratam da vida como um fluxo à frente, sempre deixando fluir.

sou toda ouvidos
mas os ruídos ao redor das vozes

É a própria voz do vento que atravessa a voz do poema. O poema é um sibilo. Sua escrita é rápida e ácida, uma espécie de cutucar, um desafiar dos leitores e das formas que namoram, por vezes, com a poesia concreta, como em cebola ou gatilho preso. Um tiro, um soco, uma reflexão, um poema. Um poema-sacode.
lá no fundo

toda raiva é dor
é ferida

convertida

esse choro é fúria
em lágrima

vertida

Nailor Marques Jr, professor e autor de A poesia como substância.

Sinopse

“Entre os lábios do avesso” é uma coletânea envolvente de poemas que reflete a jornada experimental da autora no universo da poesia, abrangendo formas e temas variados.

Com essência reflexiva e intimista, a obra revela algumas de suas paixões, tais como gatos, vinho, filosofia, ciência e o próprio ato de escrever. Também revela suas angústias, inconformismos, cansaços e reflexões sobre a vida, a sociedade e a condição humana.

A autora demonstra um indiscutível gosto por brincar com palavras de um jeito original, utilizando-se de metáforas e analogias incomuns.

A maior parte dos poemas são pinceladas livres, sem amarras estruturais, mostrando sua liberdade criativa. Porém, ao final do livro, a autora apresenta a poesia-espiral, um experimento estético no qual utiliza a proporção áurea, relacionada à intrigante sequência de Fibonacci. Por meio de uma cuidadosa aplicação da razão 21/13, cada verso é construído com um número de caracteres que respeita a sequência de Fibonacci até o número 21, revelando o harmonioso recorte de uma espiral.

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Prefácio

Nada Mais

Prefaciar poesia, que perigo. Corre-se o risco de adocicar a fruta, de melodiar a harmonia. Poesia prescinde de introdução. É luz de parto. É a luz do palco. O resto é firula e talco, dos quais, justamente, estamos fartos. Exaustos.

A poesia de Sandra Boveto é um testemunho deste cansaço impessoal, contracorrente de uma enorme concentração da realidade. “O desafio é viver o que se escreve”, tanto a vida do desejo insatisfeito quanto a força massiva da gravidade, torpe, taxativa e prepotente das piracemas estéreis. Mas não é só do desânimo que se desabriga, prossegue. É do estranhamento das feridas que se abrem e se fecham. Tectônicas, quentes. Corvos na alma vazia.

A poesia deste livro é uma bola de pêlos e de perguntas intragáveis que a língua toca e acaba engolindo. É um canto à loucura benigna, ao temperado destempero. É carta suicida, “pronta pra entender a vida”. Na poesia, o corpo é carcaça e vulcão, e é ele que sopra os ruídos ao redor das vozes. A lava cospe da boca e é do fora que se afoga, do que se desmancha no ar, do drinque seco da sociedade líquida. Um fluído de humores, uma estalactite dos romances que são contos que são poema, ponto, que é sopro, uma gota na aridez da vida.

Os poemas de seu Entre os Lábios do Avesso parecem surgir um de dentro do outro, espelhos que se desentendem. Há humor nesta inspiração embriagada. São mil dedos gatunos, lunáticos. Há humor, e apesar disso, há um riso, “instante ínfimo em que nada é assim tão importante”.

São círculos de um compasso que desenha as crateras da lua – cicatrizes inocentes, alegres de vácuo, livres de História, deste satélite insistente que há bilhões de anos quase tocava o nosso planeta, amante e sedutora, e que se distancia um trago a cada ano, como que buscando um último capítulo.

É disso e daquilo, a poesia recorrente deste livro. E no entanto, a leitora saberá que não: catarse & altitude, carne & linguagem, suco & fibra, infinito & eternidade, ensaio & queda, pedra & muxoxo, ela busca e engole a si mesma, assume as rédeas do próprio descontrole e sua forma frágil desvirtua os índices possíveis da balança. É um segredo da inspiração lúcida do vinho, um retorno à nostalgia da esfera, ao sangue da melancia grávida.

A tinta da autoria, da responsabilidade, dessangra um cansaço antigo quanto o próprio tempo. Seu umbigo é o sonho das primeiras lascas, das espirais em estado de natureza. A insistência costuma ser uma virtude e não há literatura que não a cometa. Esta é sem dúvida a seiva desta uva, o horizonte que a nau faz de porto, e mais nada.

Tiago Novaes