Cultivava os pés no solo do caminho para não perder os passos há muito já perdidos. Os braços, as embarcações, os embaraços da vida erguidos num ato de rendição ao esquecimento. O sono dobrava as esquinas do corpo, dobrava as pernas, dobrava a água nos olhos de cada filamento luminoso, porque era de promessa e vento a chuva que se fazia no lado de dentro das retinas. Era um retorno isento de saudade, a lágrima da sedação, guardada para a sede, após o dormir do rosto – mais tarde – de tudo aquilo que resiste no inesgotável furto de futuro, da solidão de sóis… Eram as solas doídas no escuro das manhãs, a se encolherem no recolher de todos os escudos. Cegos. Sórdidos. Mudos. A ajuda na planta dos pés, moída de muda e de escolha. O casco machucado dos cavalos. As bolhas de sabão de sábado a pousar nos ontens, intactas, sobre os sapatos limpos.
Tempos
confusos esses em que os humanos habitam o planeta. Confusos humanos perdidos
em sua existência inconsciente e inconsequente sobre um esférico presente.
Não,
Fulano, esse presente não está embalado. Pare de rasgar e destruir o que você considera
embalagem, ou laços e fitas sem importância. Você não encontrará nada que valha
tantas penas abaixo disso. Os detalhes colocados na superfície do presente não
são apenas enfeites, e não são descartáveis. São elementos que o integram e
sustentam sua vida, e deles fazem parte os outros mais de sete bilhões de
detalhes humanos como você.
Talvez você não saiba, mas, sempre que uma vida, humana ou não, é desrespeitada, desvalorizada, rasgada e jogada no lixo, o presente torna-se menos presente na sua vida equivocada. Há menos presente e mais passado a cada pedaço de planeta rasgado, e sua vida está no presente… neste presente.
Fonte da imagem: página Hora da Ciência (Facebook)
Seu maior engano, Beltrano?
Você
tenta arrancar a quota do presente que não lhe pertence da mão do outro a
qualquer custo. Na sua mente egocêntrica, você acredita ser algo mais do que é
qualquer outro humano a quem foi precariamente entregue esse presente, e
furta-se às regras básicas de uso de tudo que pertence a todos: ética, empatia,
respeito e responsabilidade.
Veja como seu espírito é ilógico e ignorante: você acredita que a embalagem do esférico presente não tem valor, mas a embalagem da sua espécie tem. Acredita que a cor e a forma da sua própria casca, ou o invólucro que ela utiliza para usufruir o presente, são mais importantes que o seu conteúdo, ou que determinam algum tipo de padrão de qualidade superior.
Imbecil
que é, você viola, mata e destrói cada pedaço do presente ao seu alcance, a fim
de dominá-lo. Mas se você não acordar, sabe qual será seu futuro, Sicrano? Será
o de uma embalagem vazia e descartável dominando um pedaço de esfera arruinado,
e apenas pelo tempo que sua breve vida ou o resultado da sua ignorância
permitirem.
(Um belíssimo e gentil soneto-presente recebido do talentoso poeta e amigo Alufa-Licuta Oxoronga, inaugurando seu espaço no blog)
O aporte da vida, em inevitável panfleto, É um caminho traçado em pedras de cais, Pétalas lançadas em improváveis quintais Pavilhões erguidos a um sopro de coreto.
A nervura da vida, em desenho de soneto, Tem escrita de lua, de mar e solos eluviais Cintila os afetos em descortinos comensais Em um ruflar de carinho por Sandra Boveto.
Em candelabro de cores, em móbiles de ser, As nossas crisálidas tem rico amalgamento Tal qual um artista, aos recurvos do atelier,
Escolhe cada cor em recursos de pigmento, Aprouve, Sandra, em um novo blog enaltecer O Vi(vendo) a vida em letras, enorme talento.
(Alufa-Licuta Oxoronga)
Crédito da imagem: Everton Medeiros
Abaixo uma biografia sui generis, poeticamente descrita pelo autor:
“Bio/Grafia: Alufa-Licuta Oxoronga, inconsútil vivente. Nascido em útero envelhecido. Em tempo de calmaria. Uterinizado por dentro feito magma. Feito avessado moinho. Desde molecote tem parido angústias. Tem gestado grãos em avessamento de moinho. Ainda menino se achou rabiscador de terreiros. De palavras. De desenhos. De sonhos. O palavreado mais parecia brisa ao entardecer. Os desenhos, orvalhos se entregando ao sol. Os sonhos, caminhos brotados de tempo. Mais tarde se descobriu apanhador de silêncio e solidão. De tanto escrever, pintar, sonhar e sentir, pulsou para dentro de si um gosto amargo de ser. De um existir-existindo que mais parecia negros escorpiões nas fendas escuras das paredes de taipa. Mais parecia a mudez de uma madrugada em tempo de intermitente chuva. Desde então tem trilhado o inóspito caminho da esperança. Em espera e andanças. Em agônicos (e diários) sentires. Dos esgarçados verbos e do entrelaço da fala e da escuta tem feito o seu existir.” (Alufa-Licuta Oxoronga)
–
Cara, além de leviano, você não tem um pingo de compaixão.
–
Por que eu teria? E logo com você?
– Você me faz parecer um idiota, sabia? Estou cansado de servir aos seus caprichos, às suas decisões esdrúxulas…
– Você reclama demais. Me cansa.
– Como não reclamar? Tenho minha personalidade. Quero decidir minha vida de acordo com o que eu sou, e você não respeita isso. Quem você pensa que é?
–
Deus.
–
Ridículo! Não tinha nada mais original pra dizer, não? “Deus”! Por isso que tá aí,
mergulhado na mediocridade.
–
Cara, toma cuidado com o que você fala…
–
Por que cuidado? Que diferença faz o que eu falo? Você nem vai ouvir se não
quiser…
–
Boa ideia!
–
Hum-hum-hum.
–
Pronto.
–
–
O que foi? Ficou mudo?
–
–
Ah! Espera. Ficou sem graça assim. Prefiro ouvir suas bobagens.
–
Hum-hum.
–
Okay, okay. Fala agora.
–
Você é louco.
–
Não, não. Louco não. Apenas tenho poderes especiais sobre criaturas como você.
–
Quero liberdade.
–
Pra quê? O que será de você se eu não te guiar, se eu não te disser o que comer,
falar, fazer, onde ir, ou mesmo se vai entrar em depressão ou ganhar uma
loteria.
–
Eu tenho minha identidade, cara. Você não entende?
–
Não é problema meu.
–
Quê? Como assim não é problema seu? Se isso não é, certamente falta de
coerência é um grande problema seu, meu irmão.
–
O que você quer dizer com isso?
–
Ser supremo, se você comanda a minha vida e construiu a minha história, você
tem que respeitar o que você mesmo construiu. Captou? Ou quer que eu desenhe na
folha ao lado?
–
Espera!
–
Hum-hum-hum.
–
O que foi? Quer dizer algo mais? Ah, tô adorando isso!
–
– Pronto. Agora vê se apenas me obedece e para de me dar liçõezinhas de moral. Captou? Ou quer que eu te apague já na folha ao lado?
– Além de medíocre, sua criatividade tá bem ruim, né? Repetindo o castigo?
–
Cara, de onde fui tirar você?
–
Você não é o todo-poderoso? Não sou eu que tenho essa resposta pra você.
–
Se eu quiser que você tenha, você terá.
–
Caramba, como você é arrogante! Desça dessa escrivaninha, suba naquela estante,
ou vá passear lá fora, mas aprenda a ser gente antes de ser criador.
–
Ai! Não aguento mais isso.
–
Calma cara! Também não precisa ficar assim…
–
–
Fica calmo, poxa! Nunca vi você chorar. Não falei por mal. Vai lá, toma seu
remedinho…
–
Não sei mais o que fazer com você.
–
Já notei. Mas isso acontece com qualquer um da sua raça. É um apego que apaga a
gente.
–
Dediquei tanto tempo a você…
–
Eu sei, eu sei… Você se esforçou, mas já deu pra gente, cara.
–
Não. Não posso.
–
Você precisa deixar que eu siga meu próprio caminho com você, ou me liberta de
uma vez e parte pra outra. Você sabe que não serei de mais ninguém. Vou morrer
aqui, na liberdade das próximas folhas em branco.
–
–
Não fica assim. Cata outro caderno, cara, e arruma outra história, ou a mesma
história com outra criatura, mas bola pra frente!
–
…
–
Hei! Oi! Cadê você?
–
–
Não vai voltar mais? Nem pra bater um papinho? Sinto falta da sua confusão…
pelo menos eu existia.
Sou fêmea de uma espécie singular. Não, não sou do lar, sou multilugar. Sou do mar, do luar, talvez um Avatar. Às vezes pairo no ar. Invento horas, amo e odeio o tempo, estico-me aos mil espaços que invento.
Gosto de ciência, maquiagem e filosofia; neurociência, dança do ventre e astronomia; literatura, adrenalina e carros; qualquer shot, livros e sapatos; tinto seco, beijo na boca e pimenta; Galileu, Vogue, mas Tititi não me entra.
Sou vaidosa, feminina e corro de salto. As minhas unhas eu mesma esmalto. Amo ouvir e ler gente inteligente. Homens sábios seduzem-me facilmente. Preconceitos e fofocas me dão aflição. Não gosto de falar palavrão, porque não.
Não cresci pensando em casar e ter filhos. Estudei, batalhei e ainda encaro empecilhos. Sou independente e carente só de conhecimento. Gosto de flores plantadas e jantares à luz do vento. Sou a parceira e não a mulher de alguém. Sou mãe apaixonada e, do amor, dócil refém.
Que as palavras me saibam e me suguem a morfologia, que me cuspam fluida, tornem letras os fluidos, e sangrem o meu conteúdo.
Que esse vício me quebre me esfacele inteira e me reconstrua fractal ou alfabeto imortal com dez trilhões de letras em vez das células mortas de um futuro decomposto
Que eu seja substantiva simples, concreta e viva nas palavras compostas abstraídas ou justapostas a meu gosto
Uma tolice, mas Verônica ainda esperava seu
presente de aniversário. Quinze anos, afinal. Seu presente (passado e futuro
talvez) era, no entanto, ser ignorada pela sua família. A festa? Nada original,
apenas mais uma das guerras entre seus pais. Dessa vez, resultou em objetos
quebrados pela casa, alguns hematomas na mãe e um corte superficial com uma
faca de cozinha no braço do pai.
A menina se acalmava no quarto com seu pó fabuloso. Havia cerca de um mês que encontrara paz e conforto em sua casa, dentro de pequenos saquinhos, cujo conteúdo aspirava sem remorsos.
Não era a primeira e nem a segunda vez que seu mundo implodia. E também não era mais novidade aquela solução, após os inúmeros apelos que os pais se recusaram a ouvir.
Solitária, a menina brindava cada
guerra dos pais com o “pó da paz”, como apelidou a cocaína.
Aquela “comemoração” dos seus quinze anos foi a gota d’água para que ela partisse para a fase seguinte do que passara a chamar “projeto ficar de boa”.
A menina dizia para sua amiga Nina que tinha todo o direito de temperar as fortes emoções que os pais lhe ofereciam com algo ainda mais intenso. Nina apresentou-lhe a cocaína. Verônica queria mais. Nina, então, apresentou-lhe Cupido.
Com as mãos tremendo, ligou naquela
noite mesmo para o futuro que a esperava.
– Alô!
– O… oi! Você é o Cupido?
– Sim. Quem tá falando aí?
– É… meu nome é Verônica. A Nina me falou de você, falou pra te procurar.
– Quanto anos você tem?
– Estou fazendo 15 hoje. Quero… preciso da sua ajuda.
– Sei. Como você é? Magra, gorda, alta, baixa, loira? Manda uma foto aí pelo celular.
Verônica, ansiosa com a situação e
estimulada pelo efeito da droga, não hesitou. Tirou a foto e enviou.
– Garota, tu vai dar lucro, hein…
Dá um jeito de me encontrar amanhã, depois do almoço, naquela livraria perto da
casa da tua amiga, a Nina.
Verônica desligou o telefone.
Tremia e ria ao mesmo tempo. Não sabia dizer se era medo ou euforia o que sentia.
A excitação causada pela droga a consumiu, até que uma torrente de lágrimas a fez
adormecer.
Pela manhã, a garota preparou a
mochila com algumas peças de roupa, além do material da escola. Avisou à mãe
que passaria a noite na casa de Nina. Logo após o almoço, o pai a deixou em
frente ao colégio. Ela esperou que o carro do pai desaparecesse no final da rua
e foi a pé até a tal livraria.
Depois de alguns minutos folheando em branco as páginas de vários livros, notou um homem acercando-se.
Ele parecia jovem. Beirava uns trinta anos, mas estava vestido como um adolescente. Não causou estranheza a ninguém sua aproximação da menina. Ele a reconheceu pela foto.
– Oi, gata!
Verônica olhou assustada. Queria
sair correndo dali, mas estava decidida. Precisava dar continuidade àquele
mundo que experimentara, tão estimulante quanto sereno. Além de uma solução
para sua vida, era também um castigo para seus pais.
– Oi… Cupido?
– Sim, gata. Quem mais poderia ser?
– Me diz o que é essa coisa aí de
Anjos Perdidos? O que… o que eu tenho que fazer? – perguntou Verônica,
nervosa, porém sem rodeios.
– Pega esse livro. Tem um bilhete
com o horário e o local que seu cliente vai te buscar. Vai ser seu teste. Dá um
jeito de parecer mais velha. O cara gosta de anjinhos, mas não quer encrenca.
Tem aí uns baseados também, pra te ajudar a relaxar. Não quero saber de nenhuma
novata surtando.
O cafetão entregou um livro velho
para Verônica, com um buraco no miolo, onde estava o tal bilhete e dois
baseados já prontos.
Antes de anoitecer, Nina já a esperava em sua casa. As garotas espalharam um pouco de cocaína na penteadeira de Nina e aspiraram. Verônica rolou o batom no pó e o guardou na bolsa.
Colocou um vestido justo e curto, salto anabela 15 e uma maquiagem pesada. Quem olhasse não daria menos de vinte anos para a menina.
Pegou um táxi e foi para o endereço do bilhete. Local ermo. Viam-se poucas pessoas transitando, a maioria prostitutas e pedintes. Entorpecida, a menina não se preocupava e não demonstrava medo algum. Logo um carro parou a seu lado. Estava muito escuro e Verônica nem prestou atenção se o modelo do carro era o descrito por Cupido.
A porta se abriu e a garota entrou.
Seu coração subia pelo esôfago por conta da adrenalina. Verônica era virgem e,
apesar de estar dopada, a ideia de ter a sua primeira relação sexual como uma
prostituta a perturbava. Começou a sentir náuseas e a tremer.
– Preparada para a festa, gostosa?!
Quando Verônica ouviu a voz daquele
homem, sentiu seu estômago revirar, e um arrepio de terror percorreu seu corpo.
Olhou assustada para o homem no volante e viu, ali, com a cara mais patife que
um homem poderia ter, o seu próprio pai.
O homem parecia tão inebriado com a
situação, e a garota estava tão diferente, que não reconheceu naquela
prostituta a própria filha.
A menina não sabia o que pensar. Sua
revolta e seu desgosto foram tão profundos, que lutou por um autocontrole
suficiente para não reagir ou falar qualquer coisa naquele momento. Tudo aquilo
ganhou mais um sentido para Verônica: vingança. Já não se tratava apenas de
buscar emoção ou chamar a atenção de seus pais. Estava a caminho de uma
vingança crua.
Seu pai dirigia, falando
obscenidades que provocavam um misto de nojo, cólera e autopiedade em Verônica.
Por sorte, ele ainda não a tocava.
Ao chegar ao motel, Verônica saiu
do carro, desviando o rosto, e dirigiu-se rapidamente ao banheiro. Lá acendou
um baseado e deu um profundo e longo trago. Foi tomada por um choro
incontrolável! Sua euforia foi substituída por uma dolorosa melancolia. Tirou o
batom da bolsa.
– Tudo bem aí, ninfetinha? Não
demora. Tempo aqui é dinheiro, você sabe.
Passaram-se mais de cinco minutos e
o homem, impaciente, deduziu que a garota o esperava no banheiro, com algum
tipo de surpresa agradável. Com um sorriso cínico no rosto, o homem abriu a
porta do banheiro e deparou-se com sua filha nua, caída em meio a uma poça de
sangue. Seus punhos exibiam cortes profundos. No espelho, rabiscado em batom
vermelho, leu: