Não abra a caixa

Onde está a realidade?
Não, ela não está aqui
lacrada nesta caixa.

Sou o tal gato vivo-morto,
superposição quântica.
Velada,
indefinida,
estou morta
e estou viva.
Ao observador sou tudo
e nada.

Não abra a caixa!

O tempo?
Ora, o tempo…
Não o tenho aqui,
agora.
Também não está lá fora.
Não o entendo.
Ele fixa,
mas não é fixo.
Contínuo, é peremptório.
Muda e registra,
Faz muda e mata,
é branco e marca.
Mancha e limpa,
sua marcha é limpa.
Ainda assim, a nódoa fica.

Não, não abra a caixa!

Cicatrizes
invencíveis,
as piores se mostram e revelam
o que só a morte cessa.
Depois dele,
do tempo,
depois de muito dele,
vejo que não é o tempo,
mas os vermes,
que apagam as cicatrizes,
iguarias
que o tempo serve aos vermes.
Elas vivem além de você,
eles não sobrevivem ao tempo.
Sim, os vermes.
O tempo os devora
com seus estigmas corroídos.

Não abra a caixa!

Engane-se
por um tempo.
Não faz mal.
Ao tempo
mal nenhum se faz.

(Sandra Boveto)

Foto por cottonbro em Pexels.com

cansaço supermassivo

o cansaço
tem o aço
que eu não tenho

ora se descarrega sobre mim
com o peso de todos os versos presos
ora é buraco negro
supermassivo
que me suga feito espaguete vivo
entre os lábios do avesso

sobrevivo
além do horizonte de eventos
mas no silêncio
na ausência de toda luz
eu me fragmento
em elementos
da saída de tudo o que se sabe

crédito da imagem: Robert Cornelius Photography

Alerta

Esse som me dá sono
sem sonhos.

Silêncio!
Quero acordar.

“Presto atenção no que eles dizem,
mas eles não dizem nada” –
falou o Engenheiro.

Nada dizem ainda,
nem no Hawaii,
nem aqui.

Mens alerta in corpore pateta –
é prisão perpétua.
Mens pateta?
É pena de morte na certa.

Cada um é de si o juiz.
Mão na pena,
decreto a pena
e sou o condenado
às pedras de um regime
fechado.

(Sandra Boveto)

From pexels

Submersa

Sobrevida submersa,
sem resgate, sem futuro.
Falso tempo é o que resta.
Neste mar, sou náufraga
em metáforas sem rumo.

Pensamentos expulso,
escusos.
Sentimentos em conchas resgato.
Do abismo profundo,
obscuro,
emerge nau
de universo impuro.

Sulca o velho mar o corpo,
salgam antigas lágrimas a alma.
Para aquela nau não há porto,
para este espírito não há calma,
senão a do horizonte
morto.

Sinto a seiva do sal que me salva,
sorvo a paz que substitui a vida.
Ao negro abissal desfaço-me,
sou água
em metáforas perdida.

(Sandra Boveto)

crédito da imagem: Robert Cornélius photography

Quem dera transportasse a própria ida…

Cultivava os pés no solo do caminho para não perder os passos há muito já perdidos. Os braços, as embarcações, os embaraços da vida erguidos num ato de rendição ao esquecimento. O sono dobrava as esquinas do corpo, dobrava as pernas, dobrava a água nos olhos de cada filamento luminoso, porque era de promessa e vento a chuva que se fazia no lado de dentro das retinas. Era um retorno isento de saudade, a lágrima da sedação, guardada para a sede, após o dormir do rosto – mais tarde – de tudo aquilo que resiste no inesgotável furto de futuro, da solidão de sóis… Eram as solas doídas no escuro das manhãs, a se encolherem no recolher de todos os escudos. Cegos. Sórdidos. Mudos. A ajuda na planta dos pés, moída de muda e de escolha. O casco machucado dos cavalos. As bolhas de sabão de sábado a pousar nos ontens, intactas, sobre os sapatos limpos.

(De Patrícia Claudine Hoffmann)

Fonte da imagem: post da autora no Facebook

Detalhes humanos

Tempos confusos esses em que os humanos habitam o planeta. Confusos humanos perdidos em sua existência inconsciente e inconsequente sobre um esférico presente.

Não, Fulano, esse presente não está embalado. Pare de rasgar e destruir o que você considera embalagem, ou laços e fitas sem importância. Você não encontrará nada que valha tantas penas abaixo disso. Os detalhes colocados na superfície do presente não são apenas enfeites, e não são descartáveis. São elementos que o integram e sustentam sua vida, e deles fazem parte os outros mais de sete bilhões de detalhes humanos como você. 

Talvez você não saiba, mas, sempre que uma vida, humana ou não, é desrespeitada, desvalorizada, rasgada e jogada no lixo, o presente torna-se menos presente na sua vida equivocada. Há menos presente e mais passado a cada pedaço de planeta rasgado, e sua vida está no presente… neste presente.

Fonte da imagem: página Hora da Ciência (Facebook)


Seu maior engano, Beltrano?

Você tenta arrancar a quota do presente que não lhe pertence da mão do outro a qualquer custo. Na sua mente egocêntrica, você acredita ser algo mais do que é qualquer outro humano a quem foi precariamente entregue esse presente, e furta-se às regras básicas de uso de tudo que pertence a todos: ética, empatia, respeito e responsabilidade.

Veja como seu espírito é ilógico e ignorante: você acredita que a embalagem do esférico presente não tem valor, mas a embalagem da sua espécie tem. Acredita que a cor e a forma da sua própria casca, ou o invólucro que ela utiliza para usufruir o presente, são mais importantes que o seu conteúdo, ou que determinam algum tipo de padrão de qualidade superior.

Imbecil que é, você viola, mata e destrói cada pedaço do presente ao seu alcance, a fim de dominá-lo. Mas se você não acordar, sabe qual será seu futuro, Sicrano? Será o de uma embalagem vazia e descartável dominando um pedaço de esfera arruinado, e apenas pelo tempo que sua breve vida ou o resultado da sua ignorância permitirem.

(Sandra Boveto)