alta tensão

não tenho botão liga/desliga
desligo só na tomada
depois
não ligo pra mais nada

mas tenho botões digitais
de sintonia fina
e por ser menina
tenho um botão a mais

também há botões ilógicos
de sintonia grossa
adaptável ao meio
dou a resposta

mas não só de botões sou feita
há sensores
circuitos
conexões
– para esses não há botões
eles resistem a pressões mal calibradas
desajustadas
atrevidas

sou máquina com autoajuste
de carcaça perecível
meio acabada
sofrível

é de tanto preservar circuitos
o benefício vale o custo
a tensão é alta
sem resistência
posso dar curto

cara loucura

dentro de mim há um enigma
olho pra fora
busco a cura
não resisto
quero a loucura
essa que cura
loucura benigna
pois quando louca
sinto-me sã
salva da lucidez que me enlouquece
dessa lucidez que me adoece

quero a loucura
cega
surda
e vã

sim, vã
o que faz sentido maltrata
o significativo não mais me arrebata
vou me ajustar a essa vida insana
não resisto
tiraram-me a gana


não, não é isso
fui leviana
quero a lucidez
a mais cara loucura
volto à lucidez
e me entrego à tortura

que doa
que maltrate
ou que me mate
mas confio à lucidez
o meu resgate

Não abra a caixa

Onde está a realidade?
Não, ela não está aqui
lacrada nesta caixa.

Sou o tal gato vivo-morto,
superposição quântica.
Velada,
indefinida,
estou morta
e estou viva.
Ao observador sou tudo
e nada.

Não abra a caixa!

O tempo?
Ora, o tempo…
Não o tenho aqui,
agora.
Também não está lá fora.
Não o entendo.
Ele fixa,
mas não é fixo.
Contínuo, é peremptório.
Muda e registra,
Faz muda e mata,
é branco e marca.
Mancha e limpa,
sua marcha é limpa.
Ainda assim, a nódoa fica.

Não, não abra a caixa!

Cicatrizes
invencíveis,
as piores se mostram e revelam
o que só a morte cessa.
Depois dele,
do tempo,
depois de muito dele,
vejo que não é o tempo,
mas os vermes,
que apagam as cicatrizes,
iguarias
que o tempo serve aos vermes.
Elas vivem além de você,
eles não sobrevivem ao tempo.
Sim, os vermes.
O tempo os devora
com seus estigmas corroídos.

Não abra a caixa!

Engane-se
por um tempo.
Não faz mal.
Ao tempo
mal nenhum se faz.

(Sandra Boveto)

Foto por cottonbro em Pexels.com

cansaço supermassivo

o cansaço
tem o aço
que eu não tenho

ora se descarrega sobre mim
com o peso de todos os versos presos
ora é buraco negro
supermassivo
que me suga feito espaguete vivo
entre os lábios do avesso

sobrevivo
além do horizonte de eventos
mas no silêncio
na ausência de toda luz
eu me fragmento
em elementos
da saída de tudo o que se sabe

crédito da imagem: Robert Cornelius Photography

Alerta

Esse som me dá sono
sem sonhos.

Silêncio!
Quero acordar.

“Presto atenção no que eles dizem,
mas eles não dizem nada” –
falou o Engenheiro.

Nada dizem ainda,
nem no Hawaii,
nem aqui.

Mens alerta in corpore pateta –
é prisão perpétua.
Mens pateta?
É pena de morte na certa.

Cada um é de si o juiz.
Mão na pena,
decreto a pena
e sou o condenado
às pedras de um regime
fechado.

(Sandra Boveto)

From pexels

Submersa

Sobrevida submersa,
sem resgate, sem futuro.
Falso tempo é o que resta.
Neste mar, sou náufraga
em metáforas sem rumo.

Pensamentos expulso,
escusos.
Sentimentos em conchas resgato.
Do abismo profundo,
obscuro,
emerge nau
de universo impuro.

Sulca o velho mar o corpo,
salgam antigas lágrimas a alma.
Para aquela nau não há porto,
para este espírito não há calma,
senão a do horizonte
morto.

Sinto a seiva do sal que me salva,
sorvo a paz que substitui a vida.
Ao negro abissal desfaço-me,
sou água
em metáforas perdida.

(Sandra Boveto)

crédito da imagem: Robert Cornélius photography