Súplica

Que as palavras me saibam
e me suguem a morfologia,
que me cuspam fluida,
tornem letras os fluidos,
e sangrem o meu conteúdo.

Que esse vício me quebre
me esfacele inteira
e me reconstrua fractal
ou alfabeto imortal
com dez trilhões de letras
em vez das células mortas
de um futuro decomposto

Que eu seja substantiva
simples, concreta
e viva
nas palavras compostas
abstraídas ou justapostas
a meu gosto

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Líquido seco

líquido
desfaz-se e busca a solidez
na solidão eterna de um momento líquido
– Barman ou Bauman?
– Ambos, por favor!

há pontas
há ondulações
há mágicos atritos
que arranham
e acariciam

líquido seco
que o caos acalma
que a calma tinge de guerra
com a cor do sangue
sem a dor da alma

a língua adormece aos poucos
entrega-se à morte
do mundo que não vive
língua morta de uma mente viva
que nunca dorme
que nunca morre
que sangra na taça

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Cativa

O desafio não é escrever isso ou aquilo
o desafio é viver o que se escreve
ou aquilo que quer ser escrito

há um desejo que pede
anseia
esperneia
exigindo registro

é desafio da vida
que busca a luz
a fenda
a réstia
a brecha de mim escondida

o braço se estica
mas não alcança a chave
que está lá

bem lá
presa no cinto do carcereiro

e a cada noite
o dia vira morte não escrita
aí fora
aqui dentro
no cativeiro da espera

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