A rotina nos costura
pelas ranhuras das horas
e nos arrenda a vida.
Somos linhas quebradiças.
Se o ponto aperta, arrebentamos.
Se afrouxa, nos rendemos
ao fortuito movimento
do tecido.
Frágeis seres cerzidos
soltos no espaço-tempo.

A rotina nos costura
pelas ranhuras das horas
e nos arrenda a vida.
Somos linhas quebradiças.
Se o ponto aperta, arrebentamos.
Se afrouxa, nos rendemos
ao fortuito movimento
do tecido.
Frágeis seres cerzidos
soltos no espaço-tempo.

Que as palavras me saibam
e me suguem a morfologia,
que me cuspam fluida,
tornem letras os fluidos,
e sangrem o meu conteúdo.
Que esse vício me quebre
me esfacele inteira
e me reconstrua fractal
ou alfabeto imortal
com dez trilhões de letras
em vez das células mortas
de um futuro decomposto
Que eu seja substantiva
simples, concreta
e viva
nas palavras compostas
abstraídas ou justapostas
a meu gosto

líquido
desfaz-se e busca a solidez
na solidão eterna de um momento líquido
– Barman ou Bauman?
– Ambos, por favor!
há pontas
há ondulações
há mágicos atritos
que arranham
e acariciam
líquido seco
que o caos acalma
que a calma tinge de guerra
com a cor do sangue
sem a dor da alma
a língua adormece aos poucos
entrega-se à morte
do mundo que não vive
língua morta de uma mente viva
que nunca dorme
que nunca morre
que sangra na taça

O desafio não é escrever isso ou aquilo
o desafio é viver o que se escreve
ou aquilo que quer ser escrito
há um desejo que pede
anseia
esperneia
exigindo registro
é desafio da vida
que busca a luz
a fenda
a réstia
a brecha de mim escondida
o braço se estica
mas não alcança a chave
que está lá
lá
bem lá
presa no cinto do carcereiro
e a cada noite
o dia vira morte não escrita
aí fora
aqui dentro
no cativeiro da espera

dentro de mim há um monstro
filho do dédalo da mente
maníaco
faminto de vida inteligente
insaciável
um devorador descrente
nesse labirinto
não há herói
apenas a mortal
e o fio reticente

não existe um cansaço
mas uma falta
de espaço
para o que existe demais
