Dezoito

Trecho de “A Guerra”, um dos contos presentes no livro Dezoito, de Everton Medeiros, que reúne histórias instigantes de ficção, drama, sobrenatural, suspense, comédia e romance.

(…)

O trajeto pelo qual eu costumava correr era bastante extenso e tomava boa parte da manhã. No meio do percurso, pouco antes das 11h, algo me chamou a atenção ao olhar para o céu. Naquele momento, não havia nenhum avião sobrevoando Windsor, nem mesmo Londres, até onde eu podia ver.

           E isso era por demais estranho, pois do Aeroporto de Heathrow partem e chegam aviões a todo instante. Não há como olhar para o céu em qualquer momento do dia e não ver nenhuma aeronave sobre a cidade. No entanto, ainda mais inusitado foi o fato de não haver um único rastro no céu, deixado pelas turbinas dos aviões. Ficou claro para mim que, naquela manhã, os aviões não estavam voando. Nunca vi isso acontecer.

            Com a respiração ofegante e os batimentos cardíacos bastante acelerados pelos quilômetros já percorridos, eu parei de correr naquele instante. Enquanto recuperava o fôlego, olhei ao redor e reparei também que não havia carros nem pessoas circulando pelas ruas e calçadas. As casas estavam fechadas. Então pensei: Cadê todo mundo?. Algo parecia muito errado. De forma repentina, uma incompreensível sensação de medo me tomou. Era como se todos soubessem de algo que estava para acontecer, exceto eu. Peguei meu celular e liguei para Emily. Após alguns toques ela atendeu:

            – Oi, amor.

            – Onde você tá?

            – Chegando ao Hyde Park.

            – E o trânsito?

            – A cidade tá vazia. Só vi policiais e carros de polícia. – Emily falava lentamente e com voz de espanto.

            – Aqui também não tem ninguém… muito estranho!

            – Eles fizeram sinal para eu sair daqui. Não entendi o porquê. Pareciam nervosos.

            – Não há nenhum avião no céu.

            – Nunca vi isso.

            – E suas amigas?

            – Tentei falar com elas, mas nenhuma atendeu.

            – É melhor você voltar pra casa!

            – Estou com medo!

            – Fique calma!

            – Não há ninguém nas ruas.

– Você viu algum comércio aberto?

            – Nada… um silêncio muito estranho… o que tá acontecendo?

            – Volte logo!

            Olhei para meu relógio e o mesmo marcava 11h09. Então, Emily falou suas últimas palavras.

            – Já estou… – a ligação telefônica foi cortada.

            Neste momento, um intenso clarão branco-amarelado tomou repentinamente o céu de Londres. Uma gigantesca bola de fogo, como nunca vira em minha vida, ofuscava o próprio Sol. Uma claridade insuportável. Fechei meus olhos numa fração de segundo, e, agindo por instinto, coloquei rapidamente minhas mãos sobre eles e me joguei no chão. Deitado, senti a temperatura da minha pele subir rapidamente. Naquelas primeiras frações de segundo após o clarão, eu ainda não sabia o que era aquilo. Por um instante, pensei que pudesse tratar-se de um meteorito ou algum pequeno asteroide explodindo sobre Londres.

(…)

(Everton Medeiros)


“Na Cabala, o número dezoito tem um significado especial e corresponde ao poder de vontade da alma. Ele é equivalente ao valor numérico da palavra hebraica “Chai”, que tem como significado “vivo” ou “vida”. E vida é aquilo que é dado pelo autor aos inúmeros personagens, humanos ou não, que compõem os DEZOITO contos desta variada obra. Neste livro, o autor viaja no tempo, no espaço e por diversos gêneros de conto.

A obra inicia-se com o drama vivido por um tenente canadense na Segunda Guerra Mundial, seguindo para uma viagem de carro sobrenatural numa sexta-feira 13, e depois para o ano 3316 da Era Cristã, quando a humanidade alcançará o fim e o início de tudo. Nos textos seguintes, vemos o horror de uma nova e destrutiva guerra mundial, o drama de um órfão à espera da adoção, a descoberta das Américas pelo genovês Cristóvão Colombo com algo mais que a História não contou, o prenúncio do fim do planeta Terra, entre outros contos sobrenaturais, de ficção científica, romance, suspense, drama e comédia.” (contracapa de Dezoito)

O livro pode ser adquirido diretamente com o autor pelo e-mail everton_1968@yahoo.com.br, ou clique nos links abaixo para compras nas livrarias virtuais;
Asabeça
Martins Fontes Paulista
Livraria da Travessa

Everton Medeiros é engenheiro e Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil. Iniciou na escrita no ano de 2000, com a elaboração de roteiro cinematográfico (gênero ficção científica) voltado ao mercado norte-americano. Em 2001, participou de diversos concursos desse gênero nos Estados Unidos, onde registrou seu primeiro roteiro de longa-metragem. Conta com diversas participações em antologias de poesia e prosa, no Brasil e em Portugal. Entre seus próximos projetos estão o lançamento de um livro de poesias e um romance de ficção científica.

Além da escrita, tem como hobby a fotografia e a astronomia, suas observações e seus registros.

Anjo Perdido

Uma tolice, mas Verônica ainda esperava seu presente de aniversário. Quinze anos, afinal. Seu presente (passado e futuro talvez) era, no entanto, ser ignorada pela sua família. A festa? Nada original, apenas mais uma das guerras entre seus pais. Dessa vez, resultou em objetos quebrados pela casa, alguns hematomas na mãe e um corte superficial com uma faca de cozinha no braço do pai.

A menina se acalmava no quarto com seu pó fabuloso. Havia cerca de um mês que encontrara paz e conforto em sua casa, dentro de pequenos saquinhos, cujo conteúdo aspirava sem remorsos.

Não era a primeira e nem a segunda vez que seu mundo implodia. E também não era mais novidade aquela solução, após os inúmeros apelos que os pais se recusaram a ouvir.

Solitária, a menina brindava cada guerra dos pais com o “pó da paz”, como apelidou a cocaína.

Aquela “comemoração” dos seus quinze anos foi a gota d’água para que ela partisse para a fase seguinte do que passara a chamar “projeto ficar de boa”.

A menina dizia para sua amiga Nina que tinha todo o direito de temperar as fortes emoções que os pais lhe ofereciam com algo ainda mais intenso. Nina apresentou-lhe a cocaína. Verônica queria mais. Nina, então, apresentou-lhe Cupido.

Com as mãos tremendo, ligou naquela noite mesmo para o futuro que a esperava.

– Alô!

– O… oi! Você é o Cupido?

– Sim. Quem tá falando aí?

– É… meu nome é Verônica. A Nina me falou de você, falou pra te procurar.

– Quanto anos você tem?

– Estou fazendo 15 hoje. Quero… preciso da sua ajuda.

– Sei. Como você é? Magra, gorda, alta, baixa, loira? Manda uma foto aí pelo celular.

Verônica, ansiosa com a situação e estimulada pelo efeito da droga, não hesitou. Tirou a foto e enviou.

– Garota, tu vai dar lucro, hein… Dá um jeito de me encontrar amanhã, depois do almoço, naquela livraria perto da casa da tua amiga, a Nina.

Verônica desligou o telefone. Tremia e ria ao mesmo tempo. Não sabia dizer se era medo ou euforia o que sentia. A excitação causada pela droga a consumiu, até que uma torrente de lágrimas a fez adormecer.

Pela manhã, a garota preparou a mochila com algumas peças de roupa, além do material da escola. Avisou à mãe que passaria a noite na casa de Nina. Logo após o almoço, o pai a deixou em frente ao colégio. Ela esperou que o carro do pai desaparecesse no final da rua e foi a pé até a tal livraria.

Depois de alguns minutos folheando em branco as páginas de vários livros, notou um homem acercando-se.

Ele parecia jovem. Beirava uns trinta anos, mas estava vestido como um adolescente. Não causou estranheza a ninguém sua aproximação da menina. Ele a reconheceu pela foto.

– Oi, gata!

Verônica olhou assustada. Queria sair correndo dali, mas estava decidida. Precisava dar continuidade àquele mundo que experimentara, tão estimulante quanto sereno. Além de uma solução para sua vida, era também um castigo para seus pais.

– Oi… Cupido?

– Sim, gata. Quem mais poderia ser?

– Me diz o que é essa coisa aí de Anjos Perdidos? O que… o que eu tenho que fazer? – perguntou Verônica, nervosa, porém sem rodeios.

– Pega esse livro. Tem um bilhete com o horário e o local que seu cliente vai te buscar. Vai ser seu teste. Dá um jeito de parecer mais velha. O cara gosta de anjinhos, mas não quer encrenca. Tem aí uns baseados também, pra te ajudar a relaxar. Não quero saber de nenhuma novata surtando.

O cafetão entregou um livro velho para Verônica, com um buraco no miolo, onde estava o tal bilhete e dois baseados já prontos.

Antes de anoitecer, Nina já a esperava em sua casa. As garotas espalharam um pouco de cocaína na penteadeira de Nina e aspiraram. Verônica rolou o batom no pó e o guardou na bolsa.

Colocou um vestido justo e curto, salto anabela 15 e uma maquiagem pesada. Quem olhasse não daria menos de vinte anos para a menina.

Pegou um táxi e foi para o endereço do bilhete. Local ermo. Viam-se poucas pessoas transitando, a maioria prostitutas e pedintes. Entorpecida, a menina não se preocupava e não demonstrava medo algum. Logo um carro parou a seu lado. Estava muito escuro e Verônica nem prestou atenção se o modelo do carro era o descrito por Cupido.

A porta se abriu e a garota entrou. Seu coração subia pelo esôfago por conta da adrenalina. Verônica era virgem e, apesar de estar dopada, a ideia de ter a sua primeira relação sexual como uma prostituta a perturbava. Começou a sentir náuseas e a tremer.

– Preparada para a festa, gostosa?!

Quando Verônica ouviu a voz daquele homem, sentiu seu estômago revirar, e um arrepio de terror percorreu seu corpo. Olhou assustada para o homem no volante e viu, ali, com a cara mais patife que um homem poderia ter, o seu próprio pai.

O homem parecia tão inebriado com a situação, e a garota estava tão diferente, que não reconheceu naquela prostituta a própria filha.

A menina não sabia o que pensar. Sua revolta e seu desgosto foram tão profundos, que lutou por um autocontrole suficiente para não reagir ou falar qualquer coisa naquele momento. Tudo aquilo ganhou mais um sentido para Verônica: vingança. Já não se tratava apenas de buscar emoção ou chamar a atenção de seus pais. Estava a caminho de uma vingança crua.

Seu pai dirigia, falando obscenidades que provocavam um misto de nojo, cólera e autopiedade em Verônica. Por sorte, ele ainda não a tocava.

Ao chegar ao motel, Verônica saiu do carro, desviando o rosto, e dirigiu-se rapidamente ao banheiro. Lá acendou um baseado e deu um profundo e longo trago. Foi tomada por um choro incontrolável! Sua euforia foi substituída por uma dolorosa melancolia. Tirou o batom da bolsa.

– Tudo bem aí, ninfetinha? Não demora. Tempo aqui é dinheiro, você sabe.

Passaram-se mais de cinco minutos e o homem, impaciente, deduziu que a garota o esperava no banheiro, com algum tipo de surpresa agradável. Com um sorriso cínico no rosto, o homem abriu a porta do banheiro e deparou-se com sua filha nua, caída em meio a uma poça de sangue. Seus punhos exibiam cortes profundos. No espelho, rabiscado em batom vermelho, leu:

Pernalonga e Lu

Eu sabia que era ridículo. Agora tenho que aturar esse povo bucha me encarando desse jeito. Odeio gente que encara, ainda que sem querer. Gente mala! Cidade pequena é isso – a gente bota algo diferente e taí, ó, vira atração. Uma coisa tão simples, tão sem graça… Tá! Zuada, eu sei. E agora tenho que aturar esse vegetal de fim de feira, pidão, achando que vou levá-lo pra casa… Só que não. Ninguém merece. Ah, alguém merece sim.

Sei de muita gente que merece ser encarado por esse cara de cenoura com olhos de Pernalonga.

Quem inventou o “ninguém merece”? Véi, quando eu fizer 15 anos, tudo vai mudar. Minha mãe pensa que vive onde, pra me fazer usar isso? Só por que é a primeira vez que ando de buzum sozinha? Caraca, viu! O pai acha que “caraca” não fica bem na boca de uma moça como eu. Caraca! Será que despenquei de algum OVNI? Eles não devem ser meus pais. Nunca chega meu ponto, e o homem-cenoura não se toca de jeito nenhum. Vou mudar de lugar. Deu ruim. Ônibus lotado. Meu primeiro buzum, lotado e sem o Plínio. Tá! O nome dele é mais ridículo que essa coisa aqui, mas o Plínio, pelo menos, ia dividir o olhar do Pernalonga cenourento comigo, com aquela boina que ele usa desde moleque pequeno. A gente andava de van na época. A moça da van morreu semana passada. Tadinha da mãe, ficou bolada com isso. Depois da van, veio a wagon da vizinha. Tinha aquele bebê que chorava todo dia. Como alguém pode deixar um bebê berrando daquele jeito… “bebeberrando” – será que isso que é cacofonia? Ca-cofonia, caco-fonia, cacofo-nia, cafofo… mia… Tadinho do Cafofo! Vomitou bola de pelos duas vezes hoje. Ai, que merda! Esqueci os fones de ouvido de novo. Ah, tudo bem – o pai fala “merda”. Cadê meu ponto? Será que perdi? Nossa! O Leo vai me trollar até a eternidade por isso. Ufa! Não perdi. O cenoura capotou. Hahaha! Deixou os olhos pernalongudos dele desabarem sobre a cara de cenoura. Vou parar de pensar pra ele não acordar. A Gigi sempre diz que penso alto. Ela é meio sensível – ou sensitiva? – como é mesmo que se diz nesse caso? Gente! Esqueci meu estojo. E agora? “Agora vamos comer amora.” – Ai, vovó, que saudades! Aquele pé de amora era o crush das férias. Tinha o Palito. Ele era tão fofo… por que será que colocaram o nome de palito num gato tão gordo? Por falar em gato, o coelho acordou. Será que é o ponto dele? Oba! Levantou. O que é que ele tá pegando? Seria a cenoura? Parece mais um palito. Putz! Uma bengala?! Ai se o pai ouve meu “putz”… Caraca! Ele encara todo mundo. Puta que pariu, “PNE”?! Eu não presto. Ele é cego. E você é uma retardada, Lu.