Amargo Amargar

A seguir, trecho do primoroso livro Amargo Amargar, de Isidro Sousa, que descreve a trajetória de amor e sofrimento de seis mulheres.
Isidro é escritor, antologista do selo Sui Generis e editor da revista literária digital SGmag.

Naquela manhã luminosa, passando casualmente pela igreja matriz, Beatriz deteve-se a contemplar a construção secular. Já visitara a maioria dos monumentos e locais de interesse em Vila Rica, explorara quase todo o património cultural do município, e embora não se considerasse religiosa quis apreciar a arquitectura daquele santuário.

Uma ampla porta transportou-a para o interior do templo. Ressaltaram logo várias filas de bancos em madeira. Observou as colunas esculpidas no extremo mais distante da capela;

Uma ampla porta transportou-a para o interior do templo. Ressaltaram logo várias filas de bancos em madeira. Observou as colunas esculpidas no extremo mais distante da capela; o branco entrelaçado das suas gravuras refulgia com uma incandescência avermelhada sob os raios solares que emanavam da janela, e ambos os pilares em torno do altar formavam um estranho par: o da esquerda era entalhado por simples linhas verticais enquanto o da direita se apresentava adornado por uma elaborada espiral florida. Reparando no lustre de cristal que pendia sobre a mesa de mármore, mirou o vitral à sua frente, pouco acima do altar, que seguia até ao tecto em forma de cúpula. Apreciou o púlpito brilhante, com ornamentos dourados nas colunas laterais; ao lado, um órgão musical reluzia às poucas luzes acesas.

Após uma visão geral, espiou os objectos religiosos: crucifixos, imagens sacras, esculturas, a Virgem Maria, o Menino Jesus, São Sebastião, Santa Bárbara, São José, Santo António, terços e rosários pendurados, castiçais e candelabros. Um pequeno oratório ostentava um cálice dourado defronte a uma cruz; uma aragem fria envolveu Beatriz, fazendo-a fitar esse oratório repleto de sombras tremeluzentes e ignorar as pessoas que iam ocupando os bancos. Alguém sentado ao órgão começou a melodiar uma música de harmonia leve, adorável; Beatriz lembrou que era domingo e compreendeu que iria ser celebrada a eucaristia dominical. Indiferente ao tráfego humano em solo sagrado, decidiu ir embora, porém, quando se preparava para sair, um súbito constrangimento reteve-a; embora não fosse católica praticante, já que estava na igreja assistiria à missa. Sentou-se, então, num banco da segunda fileira, ouvindo a doçura do som que o órgão emitia. Os seus olhos inquietos fixaram a imagem de Jesus Cristo crucificado: enquanto olhava as feridas espalhadas pelo corpo martirizado em barro talhado, a coroa de espinhos na cabeça, mãos, pés e o abdómen sangrando, na personificação daquele flagelo, pensava em Manuel. Porque será que ele lhe rejeitava as chamadas em determinados períodos? Porque desligava sempre o telemóvel, especialmente aos domingos? Nessa manhã, tentara telefonar-lhe três vezes. Começava a estranhar certas atitudes daquele homem que a fizera redespertar para a vida…

Absorta nestes pensamentos, mantinha-se alheia à entrada das pessoas que continuavam a encher a igreja. Um clérigo, devidamente paramentado, surgiu diante do altar. As palavras inaugurais da homilia sobressaltaram-na. Os olhos de Beatriz, que fitavam novamente as chamas bruxuleantes das velas de um candelabro, procuraram logo o altar; cruzaram-se com os olhos do sacerdote, que se deteve por momentos. E ela viu, incrédula, que os olhos do eclesiástico se perdiam nas órbitas. «Manuel?!!!… Meu Deus!», bradou, involuntariamente, para si mesma.

Nesse instante, a sua mente reviu todos aqueles que lhe atormentaram a vida:

o padrasto violando-a sistematicamente durante a infância e adolescência; o primo já adulto iludindo-a e abandonando-a na rua da amargura após ajudá-la a fugir; o primeiro rapaz que amou forçando-a a prostituir-se; o amante casado obrigando-a a abortar; o velho empresário empurrando-a para a cama para lhe oferecer o primeiro trabalho na televisão; o namorado viciado em drogas e no jogo espancando-a e roubando-lhe todas as economias…

Durante anos, Beatriz sentira-se um fantoche nas mãos dos homens; perdera totalmente a confiança neles. O dia em que conquistou um papel de destaque numa telenovela do canal de maior audiência granjeou-lhe uma confortável autonomia financeira. Desde aí, jamais se deixaria tornar a ludibriar pelos homens, passando, ela própria, a usá-los e a descartá-los, consoante as suas vontades e necessidades. Até que conheceu Manuel e a vida lhe devolveu o brilho aos lábios, o sorriso aos olhos, a auto-estima desaparecida, uma enorme vontade de recuperar o tempo perdido. Porque Manuel revelara-se diferente de todos os homens que na sua vida transitaram; era um ser humano sensível, compreensivo, envolvente, apaixonado. E agora… «Porquê, Manuel? Porquê?» A sua estrutura psicológica ruía novamente.

Continuava horrorizada, boquiaberta, paralisada no banco, olhos aprisionados no altar, alienada de tudo o que ouvia ou a envolvia. Um longo silêncio tumular imperava na sua mente absorta em pensamentos que se emaranhavam entre o bem e o mal… «Que absurdo, meu Deus!» Sentiu vontade de vomitar o seu infortúnio numa raiva incontrolada, quis gritar com toda a força dos pulmões… «Porque me mentiste, Manuel?» Mas a voz não saía. Tudo lhe flutuava na cabeça sem fazer conexão alguma; um misto de sensações alucinadas perpassava-lhe o rosto atónito enquanto o padre retomava a missa. «Porquê, Manuel?» Tombando de joelhos no chão frio, mergulhou, sufocada, na escuridão da sua dor, no vazio da esperança, no silêncio sepulcral da sua alma, revivendo, aturdida, aquele longínquo fim-de-semana em que saíra de Lisboa. Deixou-se recordar, com nostalgia, o dia em que conhecera Manuel…

in «Amargo Amargar» de Isidro Sousa – clique para comprar.

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