Sopro

Encontrei-me a um piscar da sepultura
cavando origens para novos finais.
Eu vi um “jamais” tecido em linho,
no pergaminho perdido de delícias e ais.

Tão mórbida fui quanto mais absurda.
Visitei surda-muda os meus funerais.
Dediquei-me poemas de silêncio,
poeiras ao vento e alguns memoriais.

Registrei tudo aquilo que dei
apenas para recordar que perdi.
E, afinal, que me importa
se foi atrás de uma porta ou na boca de um vulcão
que descansei meu coração?

Vi presentes muito mais do que ontens.
Fui a fome de meus desejos de morte.
Fui as perdas, os abandonos,
a inanição, as tristezas, o sono e a sorte.
Fui outro qualquer que não eu.
Perdi-me nos sonhos dos outros
e descobri que tudo aquilo era eu.

Quis subir minhas próprias montanhas,
adentrar florestas virgens e densas.
Ao estar ali tão perto do planalto, a vertigem,
defronte à paisagem congelada, a visão da fuligem.

Eu já estive morta.
Tropecei em uma sobrevida.
Almejei o fim da estrada,
enquanto a chegada era a minha própria vida.

Tira tu os sapatos!
Anda com o medo nas mãos
e, do medo, descalço!
Cuida das flores que eu não cuidei.
Das sementes largadas ao chão,
já não me lembro quando as depositei.

Perde-te de ti, ó monstro,
promove o encontro!
Encontra o outro
– tão mais longo encontro do que aquele que sei.

Os espinhos nos pés não são nada,
nesta estrada, a doer mais do que o torpor do conforto.
Antes o frio ou o quente ao morno!
Antes o fogo ao gelo, ao terror, ao sono!

À passiva anuência, é preferível o confronto.
À frase dita, inaudível, é preferível o morto
ou o gosto fugaz e tênue do impossível.

Impõe tu o alicate às correntes.
Tua alma está acorrentada à mente,
paralisada por Idades de Ouro.

Não te imponhas ganhar a corrida, à princípio, perdida.
O Tempo saúda-nos ao sopé da muralha.
Tua espera não vale mais do que a chuva e o nada.
Então, machuca e sente a dormência das pernas!
Teu sangue tarda mas ainda corre.

Vá à pé e te demora na estrada!
Sob o negrume da lua,
acorda o teu animal, antes que tarde.
Eu te encontro depois da sangrenta luta,
no ponto de curva após a reta final.

Vá ao teu funeral dar despedida
à vida ou à vida que achavas que tinhas.
Não sê vulgar visita em tua própria casa,
nem figurante perdido em tuas próprias batalhas.
Não és tão importante, que o cenário te eternize,
nem tão medíocre, que não te possas eternizar.
Sê eterno, então: protagoniza!

Desculpa-te a pretensão de ser tão banal.
Escreve o enredo distinto, vulgar ou nobre,
de ouro, de ferro ou de cobre.
Faz do teu sopro mais do que simples mural.

(Deise Zandoná Flores)

fonte da imagem: post da autora no Facebook

Clique no link para conhecer mais trabalhos da autora:
Alta Sensibilidade – Deise Zandoná Flores
http://www.altasensibilidade.com

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