Um dia de sol

Quem me dera
um dia de sol.

Um dia
onde eu pudesse expressar
meus escusos sentimentos .

Onde a ampla querência
de meu humano coração
não me exigisse
uma urgência de vida,
mas,
uma interpretação
e exposição
da pluralidade de minha alma.

Quem me dera
um dia de sol
que não fosse embrutecido,
retido,
esterilizado pelas vísceras
de toda uma vida combalida.

Quem me dera
um dia de sol
e
sal.

Um dia
em que nuvens se abrissem
não somente aos raios de sol,
mas, também,
aos corpos em carícias,
aos gestos familiares
e aos passeios pelos parques.

Quem me dera
um dia de sol
na imensidão azul do céu.

Um dia
em que aves registrassem seus voos
sem medo das mãos dos passarinheiros.

Um dia
em que redes atadas tolerassem
a força do amor,
em que ventos soprassem doçuras
em vez de tempestade.

Um dia
que nosso destino
(remanso calmo)
nos trouxesse algo,
além do silêncio
e
da
solidão.

Um dia
em que pudéssemos
determinar
(sem medo,
sem exigências
e sem obrigações)
nossos textos existenciais.

Quem me dera
um dia de sol.

Um dia
sem rupturas
e sem traumas.

Um dia
em que a nossa tessitura
de vida
fosse telhados abertos
aos adventos do sol.

Um dia
em que pudéssemos abreviar
a força do vento.

Um dia 
em que a esquadrinhação da vida
estivesse sobre os ombros
de todos os homens da terra.

Um dia
em que as referências,
inferências,
ânsias,
tolerâncias,
importâncias
e inconstâncias
de todos nós
fosse mesurada somente
pela pungência da vida.

Um dia
em que os jardins das casas
e os telhados sublimosos das dores
fossem empenhados
(primeiramente)
a conquistarem um lugar ao sol.

Um dia
em que os álbuns pátrios
e os gestos efusivos
fossem,
(e estivessem),
sublinhados de subterfúgios de vida.

Um dia
em que as pétalas se abrissem
à beira da estrada
sem medo da velocidade dos homens
e da poluição do ar.

Um dia
em que as conveniências da mãos
facilitassem as colheitas
nos roçados da vida.

Um dia
em que o próprio sol
não trouxesse pra dentro de nós
os seus celeiros de dor.

Um dia,
somente um dia de sol.

(OXORONGA, Alufa-Licuta. O verbo e o homem. Editora do Carmo. Brasília-DF)

Bio/Grafia
Alufa-Licuta Oxoronga, inconsútil vivente. Nascido em útero envelhecido. Em tempo de calmaria. Uterinizado por dentro feito magma. Feito avessado moinho. Desde molecote tem parido angústias. Tem gestado grãos em avessamento de moinho. Ainda menino se achou rabiscador de terreiros. De palavras. De desenhos. De sonhos. O palavreado mais parecia brisa ao entardecer. Os desenhos, orvalhos se entregando ao sol. Os sonhos, caminhos brotados de tempo. Mais tarde se descobriu apanhador de silêncio e solidão. De tanto escrever, pintar, sonhar e sentir, pulsou para dentro de si um gosto amargo de ser. De um existir-existindo que mais parecia negros escorpiões nas fendas escuras das paredes de taipa. Mais parecia a mudez de uma madrugada em tempo de intermitente chuva. Desde então tem trilhado o inóspito caminho da esperança. Em espera e andanças. Em agônicos (e diários) sentires. Dos esgarçados verbos e do entrelaço da fala e da escuta tem feito o seu existir.

(por Alufa-Licuta Oxoronga)

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