Autora de O Mundo Exclamante, livro infantojuvenil lançado em 2016. Desde então, pretendente a poeta e escritora, com várias publicações em antologias de prosa e poesia no Brasil e em Portugal.
Não é sempre que posso estar aqui. Por isso estoco-me de silêncio para ficar na parte de dentro das manhãs. Porque eu procuro. Procuro alcançar melhor a superfície contrária dos barulhos, uma vez que o espelho treina em mim olhos já bem desistidos de gritar. Procuro a pausa do que não ouso, mas ouço de involuntária nudez o coração aos sopros. Quase sempre sofro de entressafras no sorriso difícil de tudo. E mudo. Estudo os sensores das palavras enquanto isso, para ajudar na soltura do penúltimo precipício ou quem sabe, para a escalada das submersas camadas do que está apto a não ser. Calo-me nas calamidades, porém, não posso esquecer que há os possíveis timbres da beleza. E continuo. Sem desmerecer. Remover esses entulhos – nada opcionais – está me devorando por causa da memória e seu futuro. Mergulho de frio na pedra movediça do pensar e anseio perguntar sigilos aos domicílios em que me deixei morar. Olha, agora achei um rastelo de pentear areia! Queria arrumar os canteiros do acaso. Esvaziar alguns vasos. Talvez desabar esses muros de arrimo brotados no peito quando da invasão de coisas tão menores. Tenho rumores do mundo. Ainda tremo e me incomodo de urgências. Fecho os cômodos da casa nunca mais inaugural do sonho. Fecho o quintal e deserto meus litorais em litros de leituras, pequenas fúrias, ossos e ninhos, no fundo do que não sei, pois não saber é a extensão mais forte do abandono. Abandonar não é perder. É não olhar. Eu escolho o cansaço quando escrevo, para salvar os nervos da flor que armazenei num tijolo do terraço, mas sinto sono. Não. Não sou a dona desses medos. Dormir atinge-me mais longe do que os lugares me fogem. Abrange anjos antigos quando arranjam-me de música, em plena afasia do que resiste. Anestesia as pedras antes que perfurem a pele transparente dos vidros. Abriga em mim a minha rápida janela. Lapida-me nela. Lápide moída. Menos cega… E me prossegue.
Encontrei-me a um piscar da sepultura
cavando origens para novos finais.
Eu vi um “jamais” tecido em linho,
no pergaminho perdido de delícias e ais.
Tão mórbida fui quanto mais absurda.
Visitei surda-muda os meus funerais.
Dediquei-me poemas de silêncio,
poeiras ao vento e alguns memoriais.
Registrei tudo aquilo que dei
apenas para recordar que perdi.
E, afinal, que me importa
se foi atrás de uma porta ou na boca de um vulcão
que descansei meu coração?
Vi presentes muito mais do que ontens.
Fui a fome de meus desejos de morte.
Fui as perdas, os abandonos,
a inanição, as tristezas, o sono e a sorte.
Fui outro qualquer que não eu.
Perdi-me nos sonhos dos outros
e descobri que tudo aquilo era eu.
Quis subir minhas próprias montanhas,
adentrar florestas virgens e densas.
Ao estar ali tão perto do planalto, a vertigem,
defronte à paisagem congelada, a visão da fuligem.
Eu já estive morta.
Tropecei em uma sobrevida.
Almejei o fim da estrada,
enquanto a chegada era a minha própria vida.
Tira tu os sapatos!
Anda com o medo nas mãos
e, do medo, descalço!
Cuida das flores que eu não cuidei.
Das sementes largadas ao chão,
já não me lembro quando as depositei.
Perde-te de ti, ó monstro,
promove o encontro!
Encontra o outro
– tão mais longo encontro do que aquele que sei.
Os espinhos nos pés não são nada,
nesta estrada, a doer mais do que o torpor do conforto.
Antes o frio ou o quente ao morno!
Antes o fogo ao gelo, ao terror, ao sono!
À passiva anuência, é preferível o confronto.
À frase dita, inaudível, é preferível o morto
ou o gosto fugaz e tênue do impossível.
Impõe tu o alicate às correntes.
Tua alma está acorrentada à mente,
paralisada por Idades de Ouro.
Não te imponhas ganhar a corrida, à princípio, perdida.
O Tempo saúda-nos ao sopé da muralha.
Tua espera não vale mais do que a chuva e o nada.
Então, machuca e sente a dormência das pernas!
Teu sangue tarda mas ainda corre.
Vá à pé e te demora na estrada!
Sob o negrume da lua,
acorda o teu animal, antes que tarde.
Eu te encontro depois da sangrenta luta,
no ponto de curva após a reta final.
Vá ao teu funeral dar despedida
à vida ou à vida que achavas que tinhas.
Não sê vulgar visita em tua própria casa,
nem figurante perdido em tuas próprias batalhas.
Não és tão importante, que o cenário te eternize,
nem tão medíocre, que não te possas eternizar.
Sê eterno, então: protagoniza!
Desculpa-te a pretensão de ser tão banal. Escreve o enredo distinto, vulgar ou nobre, de ouro, de ferro ou de cobre. Faz do teu sopro mais do que simples mural.
Um
dia
onde eu pudesse expressar
meus escusos sentimentos .
Onde
a ampla querência
de meu humano coração
não me exigisse
uma urgência de vida,
mas,
uma interpretação
e exposição
da pluralidade de minha alma.
Quem
me dera
um dia de sol
que não fosse embrutecido,
retido,
esterilizado pelas vísceras
de toda uma vida combalida.
Quem
me dera
um dia de sol
e
sal.
Um
dia
em que nuvens se abrissem
não somente aos raios de sol,
mas, também,
aos corpos em carícias,
aos gestos familiares
e aos passeios pelos parques.
Quem
me dera
um dia de sol
na imensidão azul do céu.
Um
dia
em que aves registrassem seus voos
sem medo das mãos dos passarinheiros.
Um
dia
em que redes atadas tolerassem
a força do amor,
em que ventos soprassem doçuras
em vez de tempestade.
Um
dia
que nosso destino
(remanso calmo)
nos trouxesse algo,
além do silêncio
e
da
solidão.
Um
dia
em que pudéssemos
determinar
(sem medo,
sem exigências
e sem obrigações)
nossos textos existenciais.
Quem
me dera
um dia de sol.
Um
dia
sem rupturas
e sem traumas.
Um
dia
em que a nossa tessitura
de vida
fosse telhados abertos
aos adventos do sol.
Um
dia
em que pudéssemos abreviar
a força do vento.
Um
dia
em que a esquadrinhação da vida
estivesse sobre os ombros
de todos os homens da terra.
Um
dia
em que as referências,
inferências,
ânsias,
tolerâncias,
importâncias
e inconstâncias
de todos nós
fosse mesurada somente
pela pungência da vida.
Um
dia
em que os jardins das casas
e os telhados sublimosos das dores
fossem empenhados
(primeiramente)
a conquistarem um lugar ao sol.
Um
dia
em que os álbuns pátrios
e os gestos efusivos
fossem,
(e estivessem),
sublinhados de subterfúgios de vida.
Um
dia
em que as pétalas se abrissem
à beira da estrada
sem medo da velocidade dos homens
e da poluição do ar.
Um
dia
em que as conveniências da mãos
facilitassem as colheitas
nos roçados da vida.
Um
dia
em que o próprio sol
não trouxesse pra dentro de nós
os seus celeiros de dor.
Um dia, somente um dia de sol.
(OXORONGA, Alufa-Licuta. O verbo e o homem. Editora do Carmo. Brasília-DF)
Bio/Grafia Alufa-Licuta Oxoronga, inconsútil vivente. Nascido em útero envelhecido. Em tempo de calmaria. Uterinizado por dentro feito magma. Feito avessado moinho. Desde molecote tem parido angústias. Tem gestado grãos em avessamento de moinho. Ainda menino se achou rabiscador de terreiros. De palavras. De desenhos. De sonhos. O palavreado mais parecia brisa ao entardecer. Os desenhos, orvalhos se entregando ao sol. Os sonhos, caminhos brotados de tempo. Mais tarde se descobriu apanhador de silêncio e solidão. De tanto escrever, pintar, sonhar e sentir, pulsou para dentro de si um gosto amargo de ser. De um existir-existindo que mais parecia negros escorpiões nas fendas escuras das paredes de taipa. Mais parecia a mudez de uma madrugada em tempo de intermitente chuva. Desde então tem trilhado o inóspito caminho da esperança. Em espera e andanças. Em agônicos (e diários) sentires. Dos esgarçados verbos e do entrelaço da fala e da escuta tem feito o seu existir. (por Alufa-Licuta Oxoronga)
Cultivava os pés no solo do caminho para não perder os passos há muito já perdidos. Os braços, as embarcações, os embaraços da vida erguidos num ato de rendição ao esquecimento. O sono dobrava as esquinas do corpo, dobrava as pernas, dobrava a água nos olhos de cada filamento luminoso, porque era de promessa e vento a chuva que se fazia no lado de dentro das retinas. Era um retorno isento de saudade, a lágrima da sedação, guardada para a sede, após o dormir do rosto – mais tarde – de tudo aquilo que resiste no inesgotável furto de futuro, da solidão de sóis… Eram as solas doídas no escuro das manhãs, a se encolherem no recolher de todos os escudos. Cegos. Sórdidos. Mudos. A ajuda na planta dos pés, moída de muda e de escolha. O casco machucado dos cavalos. As bolhas de sabão de sábado a pousar nos ontens, intactas, sobre os sapatos limpos.
Tempos
confusos esses em que os humanos habitam o planeta. Confusos humanos perdidos
em sua existência inconsciente e inconsequente sobre um esférico presente.
Não,
Fulano, esse presente não está embalado. Pare de rasgar e destruir o que você considera
embalagem, ou laços e fitas sem importância. Você não encontrará nada que valha
tantas penas abaixo disso. Os detalhes colocados na superfície do presente não
são apenas enfeites, e não são descartáveis. São elementos que o integram e
sustentam sua vida, e deles fazem parte os outros mais de sete bilhões de
detalhes humanos como você.
Talvez você não saiba, mas, sempre que uma vida, humana ou não, é desrespeitada, desvalorizada, rasgada e jogada no lixo, o presente torna-se menos presente na sua vida equivocada. Há menos presente e mais passado a cada pedaço de planeta rasgado, e sua vida está no presente… neste presente.
Fonte da imagem: página Hora da Ciência (Facebook)
Seu maior engano, Beltrano?
Você
tenta arrancar a quota do presente que não lhe pertence da mão do outro a
qualquer custo. Na sua mente egocêntrica, você acredita ser algo mais do que é
qualquer outro humano a quem foi precariamente entregue esse presente, e
furta-se às regras básicas de uso de tudo que pertence a todos: ética, empatia,
respeito e responsabilidade.
Veja como seu espírito é ilógico e ignorante: você acredita que a embalagem do esférico presente não tem valor, mas a embalagem da sua espécie tem. Acredita que a cor e a forma da sua própria casca, ou o invólucro que ela utiliza para usufruir o presente, são mais importantes que o seu conteúdo, ou que determinam algum tipo de padrão de qualidade superior.
Imbecil
que é, você viola, mata e destrói cada pedaço do presente ao seu alcance, a fim
de dominá-lo. Mas se você não acordar, sabe qual será seu futuro, Sicrano? Será
o de uma embalagem vazia e descartável dominando um pedaço de esfera arruinado,
e apenas pelo tempo que sua breve vida ou o resultado da sua ignorância
permitirem.
Pedra de núcleo maciço mas de pouquíssimo arremesso,
Pedra que desde o começo não teve um sonho inteiriço.
Pedra sem sustentação e de desprezível valor,
pedra-pétrea sem valor e com víscera de solidão.
Pedra de pouca importância petrificada em areia,
pedra-pétrea que anseia por um viver sem ânsia.
Pétrea-pedra sem referência jogada, largada ao chão.
Pedra que ainda guarda querência de um humano coração.
OXORONGA, Alufa-Licuta. Útero de pedra. Editora do Carmo. Brasília-DF.
Bio/Grafia Alufa-Licuta Oxoronga, inconsútil vivente. Nascido em útero envelhecido. Em tempo de calmaria. Uterinizado por dentro feito magma. Feito avessado moinho. Desde molecote tem parido angústias. Tem gestado grãos em avessamento de moinho. Ainda menino se achou rabiscador de terreiros. De palavras. De desenhos. De sonhos. O palavreado mais parecia brisa ao entardecer. Os desenhos, orvalhos se entregando ao sol. Os sonhos, caminhos brotados de tempo. Mais tarde se descobriu apanhador de silêncio e solidão. De tanto escrever, pintar, sonhar e sentir, pulsou para dentro de si um gosto amargo de ser. De um existir-existindo que mais parecia negros escorpiões nas fendas escuras das paredes de taipa. Mais parecia a mudez de uma madrugada em tempo de intermitente chuva. Desde então tem trilhado o inóspito caminho da esperança. Em espera e andanças. Em agônicos (e diários) sentires. Dos esgarçados verbos e do entrelaço da fala e da escuta tem feito o seu existir. (Alufa-Licuta Oxoronga)